A crise no sector do turismo

Por Rui Soares Franco
ruioreysfranco@hotmail.com
Consultor em Turismo e Hotelaria


A segurança está na ordem do dia. Cada vez mais os fluxos turísticos exigem segurança no destino e nos empreendimentos que vão frequentar. É um dos principais factores de escolha e o País tem que estar atento a isto.

No meu último artigo, debrucei-me sobre dois aspectos do impacto da crise no sector turístico e prometi que voltaria ao assunto. Hoje vou tentar analisar outros aspectos do comportamento do mercado turístico neste ano de 2011.

Recentemente, foram publicados os primeiros dados sobre o desempenho do sector turístico durante o 1º Semestre de 2011. E, surpreendentemente, prevê-se que o sector turístico cresça acima da média a nível mundial. Segundo o Turismo de Portugal, o crescimento deverá situar-se entre 5 e 10% no corrente ano, sendo que a nível mundial este crescimento não deverá chegar aos 4%.

Importa, no entanto, debruçarmo-nos sobre a realidade portuguesa e tentar perceber o comportamento da oferta face a este crescimento.

Temos vindo a ser bombardeados com as queixas dos hoteleiros no sentido de que o negócio vai mal, que tiveram de baixar os preços, que as taxas de ocupação baixaram e um sem número de mais queixas.

Parece existir aqui um contra-senso mas que na realidade não o é. O que se passa em Portugal não será um crescimento desmesurado da oferta? Não terá esta, crescido mais que a procura?

Se as queixas são reais, se os preços baixaram e as taxas de ocupação também, então esta realidade é um facto. Impõe-se, por isso, controlar o crescimento desta oferta para que a mesma acompanhe o crescimento da procura de forma equilibrada. Os novos projectos de hotelaria deverão visar nichos de mercado específicos e deverão, com a sua implementação, garantir novos mercados para o sector. Criar um empreendimento para “roubar” a clientela a outro não será uma boa conduta a nível nacional mas será uma livre concorrência louvável e por isso não condenável.

Entendo que a introdução de algum bom senso nesta livre concorrência poderá passar pelo Turismo de Portugal. É esta entidade que poderá limitar um pouco o aumento da oferta através de critérios de mercado mais apertados aquando das análises das candidaturas para apoios financeiros ao investimento.

Recordo-me quando, em 1986, foi criado o Plano Nacional de Turismo. Este facto levou a que o Governo decretasse, em 1989, a criação de quatro zonas do Algarve (Praia da Rocha, Armação de Pêra, Albufeira e Quarteira) como zonas sectorialmente saturadas onde não existiam apoios financeiros para novos empreendimentos turísticos sendo os mesmos aplicados apenas na remodelação de estabelecimentos existentes com o objectivo de melhorar a qualidade da oferta. Estávamos a dar os primeiros passos no ordenamento turístico do País. Não será de se pensar em medidas similares que controlem este desenvolvimento que parece desmesurado? Deixo a questão no ar.

Por outro lado, este crescimento da actividade em Portugal, tendo em consideração a situação de crise económica que atravessamos a nível mundial, ultrapassa a média e apresenta um crescimento de dormidas que se situa em 8,9% e as receitas em 7,5 % no 1º Semestre de 2011. Se por um lado este crescimento se justifica pelo aumento das viagens de negócios, por outro este aspecto, por si só, não o justifica. Outras razões haverá para este facto.

Como a história é cíclica, recuei a 1991, altura em que estávamos em plena guerra do Golfo. Contrariamente à tendência mundial de quebra na actividade turística a nível mundial, Portugal foi o único país da Bacia do Mediterrâneo que apresentou um crescimento na actividade.

Analisada a situação, concluiu-se que o ano turístico estava perdido para os países do Mediterrâneo em virtude da falta de segurança dos países abrangidos pela guerra do Golfo ou limítrofes a estes. A excepção era a Península Ibérica e nesta, aparecia Portugal como a primeira escolha, uma vez que a Espanha se debatia com graves problemas de segurança interna devido aos grandes atentados da ETA.

A segurança foi e continua a ser um dos aspectos que mais preocupa os mercados turísticos. E esta questão é cada vez mais premente. Assistimos, nesta altura, a grandes perturbações internas em Países como o Egipto, a Líbia, a Síria, a Tunísia, países que em 1991 perderam o ano turístico por causa da Guerra do Golfo. E este ano voltaram a perdê-lo por questões de segurança.

E mais uma vez, Portugal aparece como um país internamente seguro e com empreendimentos turísticos com grandes preocupações de segurança. Será por isso que cresceu acima da média? Acredito que sim.

A segurança está na ordem do dia. Cada vez mais os fluxos turísticos exigem segurança no destino e nos empreendimentos que vão frequentar. É um dos principais factores de escolha e o País tem que estar atento a isto.

Não é por acaso que, desde a legislação de 1986, os regulamentos nacionais exigem condições excepcionais de segurança, por vezes criticadas pelos empresários como excesso de intervenção do Estado. Mas nesta altura reconhecem a necessidade e são os primeiros a aderir a estas exigências legais.

Qualidade exige Segurança.

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