A qualidade como paradigma do turismo Português

Por Rui Soares Franco

ruioreysfranco@hotmail.com
Consultor em Turismo e Hotelaria





Recentemente, saiu uma notícia que referia Lisboa como estando no top da lista das melhores cidades europeias como destino turístico para 3/4 noites. Embora tal notícia tenha sido uma grande festa para o meu “ego” como lisboeta/português, não foi, no entanto e propriamente uma novidade. Se para os partidos da coligação embandeirar em arco no período eleitoral seria usado pela oposição como uma forma de angariar votos e se dizer bem de uma situação não seria “politicamente correcto” para a oposição, deixem-me então a mim, homem do turismo, “embandeirar em arco”.

Esta notícia é o corolário de todo o trabalho desenvolvido pelo Estado Português, desde a década de 60 até aos nossos dias, independentemente dos partidos de governo, numa aposta clara numa estratégia de desenvolvimento de um sector importantíssimo para a nossa economia e que ao longo deste tempo se manteve praticamente imutável.

E qual foi esta estratégia? Digamos que a mesma assentou em quatro grandes pilares a saber:

Legislação turística – Desde 1970 (primeiro diploma sobre a actividade turística) e ao longo dos anos, conhecemos vários quadros legais para os empreendimentos e actividades turísticas. Com a aplicação prática destes diplomas, foram sendo definidos e aperfeiçoados os conceitos existentes e registou-se uma evolução certeira no sentido de se implementarem produtos que correspondessem às necessidades e preferências da clientela. As normas eram exigentes e Portugal começava a apresentar da melhor hotelaria a nível mundial, tendo em consideração o conjunto de todas as categorias de empreendimentos existentes. A legislação foi evoluindo, sempre com o objectivo de fazer mais e melhor. Não foi por acaso que a legislação portuguesa serviu de base às normas europeias existentes nesta área. A legislação era implementada de forma didáctica e não imposta de qualquer maneira. Era utilizado o bom senso na sua aplicação e toda a inspecção era efectuada não no sentido de se aplicarem coimas, mas com uma finalidade didáctica permitindo melhorar as condições de segurança, acolhimento e estadia nos empreendimentos. Tal estratégia, infelizmente, não é seguida, hoje em dia, pela ASAE. A fiscalização é feita por uma “polícia” e não por técnicos de turismo especialistas em empreendimentos e actividades turísticas. Esperemos que não estraguem o que levou tanto tempo a criar.

Promoção da qualidade – Houve uma preocupação de se promover a qualidade em diversas áreas. Qualidade na construção realçando que um pouco mais de investimento aumentava a duração e segurança dos edifícios, qualidade nos conceitos hoteleiros directamente ligados à fruição e comodidade dos mesmos, qualidade nos equipamentos e mobiliário como forma de melhorar o serviço e a fruição do espaço criado, qualidade do serviço desde o acolhimento até à satisfação de todas as necessidades decorrentes da permanência dos turistas no espaço e fomentando um contacto humano que transformasse a estadia num acontecimento que os incentivasse a regressar um dia. E toda esta implementação não era imposta por normas exigentes e punitivas. Pelo contrário, era transmitida num contacto didáctico entre a administração e os variados actores, convencendo-os de que este era efectivamente o caminho certo. Este trabalho era feito em reuniões personalizadas não só com os promotores mas também com os projectistas e directores hoteleiros, de forma concertada e em equipa. Foi um trabalho extremamente gratificante e em que tive o privilégio de participar.

Formação – Era uma área extremamente importante. Foi um investimento público feito, desde a primeira hora, nas nossas escolas hoteleiras. Hoje em dia, competem com as melhores a nível europeu, incluindo as escolas suíças de grande renome. Era a base da investigação que se fazia no sector. As diversas profissões turísticas, muito mais vastas do que as que têm directamente a ver com a hotelaria, encontravam nestas escolas o conhecimento necessário ao seu desenvolvimento. Mas este conhecimento não apareceu de repente. Este conhecimento decorreu do investimento feito no SABER e da articulação de anos com todos os intervenientes no sector. O trabalho empreendido, numa tentativa de melhor conhecermos os nossos visitantes, as suas preferências e as suas necessidades, teve um reflexo na oferta que permitiu desenvolver um sector emblemático no nosso país.

Promoção – Por último, há que referir a promoção feita, quer interna quer externamente, das nossas riquezas paisagísticas, patrimoniais e humanas. Para este efeito contribuiu largamente o trabalho das autarquias na recuperação da paisagem e do património local, bem como a sensibilização das populações locais para bem acolherem os nossos visitantes.

Todo este trabalho realizado em equipa tinha necessariamente que produzir bons resultados.

Outros aspectos existirão certamente e que também contribuíram para estes resultados. E não só em Lisboa. O mesmo se passou no Porto, no Algarve, na Madeira e noutros destinos nacionais. Basta vermos e ouvirmos o que se passa diariamente nas nossas cidades, nas nossas praias e nos nossos monumentos. E tudo fruto de uma estratégia global, implementada em equipa, em que todos os actores sabiam aquilo que tinham de fazer. E os resultados estão à vista.

Que as novas gerações saibam dar continuidade a este trabalho que tanto orgulho dá a quem nele participou.

1 comment

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1 Comment

  • Anónimo
    30 de Outubro, 2013, 12:37

    Parabéns pelo artigo em contraciclo; Nem tudo é mau.

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