Do VUCA ao BANI O que significa isso para as Proptech’s?
Um recente artigo que li, relembrou-me o acrónimo VUCA ( Volatile, Uncertain, Complex and Ambiguous) ou (Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo). Este conceito foi criado pela academia militar norte americana para enquadrar as dinâmicas globais pós-guerra fria com o colapso da URSS e do Muro de Berlim. Começou a ser utilizado na gestão empresarial a partir de 1985, com a publicação do livro dos economistas Warren Bennis e Burt Nanus sobre liderança: “Leaders. The Strategies For Taking Charge.” Num mundo com estas características e em plena revolução tecnológica, pede-se aos decisores executivos tomadas de decisão e lideranças mais intuitivas e preditivas, capazes de se anteciparem aos fenómenos próprios de uma globalização que surpreende pela sua complexidade.
Mas será que o mundo ainda é VUCA? A 4ª Revolução Industrial, os fenómenos climáticos e recentemente a pandemia COVID19, os Cyber-Ataques e a recente imprevisível invasão da Ucrânia com o risco de uma escalada do conflito, vieram mostrar-nos uma nova realidade de instabilidade, imprevisibilidade e de caos. em 2018, o antropólogo e futurista Jamais Cascio já observava que o mundo VUCA estava a ficar obsoleto, face a estas novas realidades.
“Situações em que as condições não são simplesmente instáveis, são caóticas; nos quais os resultados não são simplesmente difíceis de prever, e sim completamente imprevisíveis. Ou, para usar a linguagem particular desses frameworks, situações em que o que acontece não é simplesmente ambíguo, é incompreensível.” Refere o antropólogo.
Jamais Cascio surge então com um novo modelo o BANI, uma transição do “Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo” para o “Frágil, Ansioso, Não linear e Incompreensível” (Brittle, Anxious, Nonlinear, Incomprehensible).
Características do BANI
1. B = Brittle/Frágil – a ideia que estamos suscetíveis a catástrofes a qualquer momento e todas as empresas que estão construídas sobre bases frágeis, podem desmoronar-se da noite para o dia.
2. A = Anxious/Ansioso – a ansiedade é um dos sintomas mais presentes e reflete-se também no mercado de trabalho. Estamos a viver desafios que exigem decisões urgentes, esta pressão tem um impacto importante e condiciona os resultados.
3. N = Nonlinear/Não-linear – Atravessamos um período cujos eventos parecem desconectados e desproporcionais. Sem uma estrutura bem definida e padronizada, não é possível fazer organizações estruturadas. Logo, planos rígidos, rigorosos e detalhados de longo prazo, podem não fazer sentido.
4. I = Incomprehensible/Incompreensível – a incompreensão é gerada quando tentamos encontrar respostas, mas as respostas não fazem sentido. As certezas estão abaladas perante o que desconhecemos. Dessa forma, precisamos entender que não temos o controle sobre tudo.
Jamais Cascio, considerado um dos 100 maiores pensadores a nível global pela revista Foreign Policy, Doutor Honoris Causa pela University of Advancing Technology . é um reconhecido “futurista”, autor de vários livros, é fundador do Think Tank Institute for the Future. Muitos dos seus trabalhos versam sobre o futuro da evolução humana, educação na era da informação e tecnologias emergentes, para além dos dilemas ambientais e transformações culturais.
Mas, de que forma é que o modelo BANI pode impactar o ecossistema do empreendedorismo em particular nas Proptechs?
Tive a oportunidade de fazer 4 perguntas a Jamais Cascio. Quis entender a sua abordagem do empreendedorismo neste contexto atual de profunda imprevisibilidade, onde somos surpreendidos com fenómenos e decisões incompreensíveis, onde a ansiedade parece fazer parte das nossas vidas, neste mundo…BANI!
João Abelha (JA) – Continuamos a nível global com modelos educacionais conservadores, quase ignorando um mundo que nos surpreende a cada dia e que demonstra o quão despreparados estamos. Acredita que a realidade BANI pode e deve inspirar um novo modelo educacional, com um desenvolvimento cognitivo mais estimulante e criativo, para que as novas gerações possam adaptar-se e encontrar soluções mais flexíveis em cenários de caos e incertezas?
Jamais Cascio (JC) – Eu não acho que o BANI irá realmente inspirar novos modelos, mas acredito que pode servir como um aviso aos modelos existentes no sentido de demonstrar a necessidade de uma abordagem nova e diferente. Acredito sim, que o BANI pode mostrar aos defensores do pensamento tradicional que os métodos antigos já não funcionam e que é crucial que surjam novas metodologias de ensino. Se o BANI ajudar nessa reflexão já ficarei feliz.
JA – O empreendedorismo impulsionado pela dinâmica tecnológica atinge níveis nunca antes vistos. Acha que os empreendedores estão a libertar-se de visões conservadoras e a visualizar a realidade BANI, encontrando soluções dentro de modelos de negócios ajustados a esta nova realidade?
JC – É possível; parece-me provável que os empreendedores estejam a aperceber-se do nível de caos em que estamos e a reagir em conformidade, desenvolvendo e adaptando os seus modelos. BANI oferece uma estrutura para descrever o caos, mas não oferece, por si só, soluções específicas. Precisamos de mais empreendedores a trabalharem esta realidade e a procurar maneiras de tornar o mundo caótico e BANI mais habitável.
JA – Dentro da realidade BANI, que competências considera essenciais para ter-se sucesso como empreendedor?
JC – Honestamente, as mesmas habilidades necessárias em todo o espectro do trabalho e da vida: disposição para ser flexível e resiliente (o que pode significar estar disposto a afastar-se dos modelos “just-in-time”); um foco na improvisação (que incluirá ouvir a intuição e uma reavaliação constante de suas condições); e uma capacidade de empatia (que reconhece que as necessidades dos humanos são intersectoriais – isto é, não pode olhar-se para uma parte da vida de uma pessoa sem levar outras partes de sua vida em consideração).
Um empreendedor é alguém que olha para esses três fatores de adaptação ao mundo BANI como uma base para um plano de negócios, não um conjunto de problemas para contornar.
JA – No âmbito das Startup’s, um dos itens na avaliação de projetos são as projeções de resultados financeiros, geralmente em 3 e 5 anos. Esse tipo de métrica ainda faz sentido? No BANI o que deve ser considerado em termos de avaliação de risco?
JC – Do meu ponto de vista, as projeções de três a cinco anos têm sido inadequadas há algum tempo; indiscutivelmente, uma das razões pelas quais estamos em um mundo de caos é esse tipo de foco no curto prazo. A maior parte do trabalho que faço visa horizontes de dez anos ou mais. Não para fazer previsões sólidas ou numéricas, mas para ter uma noção melhor dos tipos de mudanças que estão ocorrendo no mundo.
Costumo reforçar em conversas nos últimos anos sobre o trabalho de previsão que: o objetivo da previsão não é estar certo – ninguém pode prever o futuro e todas as nossas previsões estarão erradas de maneiras diferentes. O objetivo da previsão é estar utilmente errado – pegar o que vemos sobre o amanhã e usá-lo para entender melhor as nossas escolhas no presente. Para obter uma melhor compreensão do intuito e da escala das mudanças futuras, a fim de descobrir como se adaptar melhor às próprias mudanças, não apenas aos desenvolvimentos específicos.
Desta entrevista tão generosamente cedida por Jamais Cascio, concluo que temos de repensar os modelos tradicionais de gestão e decisão, pensar que toda a evolução conjuntural, tecnológica, social, económica, climática e política traz agregada, fatores de imprevisibilidade e volatilidade que exigem capacidades extraordinárias de improviso, criatividade e predictabilidade, para se encontrarem soluções e janelas de oportunidade em cenários adversos e incompreensíveis.
Costumo enfatizar que as Proptech’s e a Indústria Imobiliário no geral, tem de responder a problemas, oportunidades e necessidades de mercado. Na arquitetura criativa de um projeto, a equipa tem de possuir características de resiliência, flexibilidade, empatia, transparência e ética, acompanhadas de intuição, pois só assim se conseguem desenvolver soluções disruptivas e inovadoras capazes de evoluírem e com características de adaptabilidade.
É crucial na gestão de pessoas, a adoção de estratégias de inclusão, diversidade, equidade para que as equipas estejam unidas e coesas, preparadas para lidar com fenómenos imprevisíveis. Todas as estruturas têm de possuir características de adaptabilidade e flexibilidade para lidar com a incompreensão e não-linearidade.
No caos provocado pelo COVID19, vimos o mundo do imobiliário tremer com o lockdown, as empresas ficarem paralisadas, índices de ansiedade extrema. A maior parte das empresas ainda não recuperaram, resistiram aquelas em que uma gestão flexível entendeu que a tecnologia, suportada por recursos financeiros mais robustos, podia dar uma resposta e aproveitarem uma janela de oportunidade com a desorientação criada. Vivemos hoje com o receio de ataques informáticos de consequências imprevisíveis e temos de repensar a forma de desenvolver modelos para sobreviver e não paralisar em momentos de caos.
Uma pergunta deve merecer reflexão: Devemos continuar a focar-nos em modelos puramente tecnológicos assentes no desenvolvimento de plataformas em “nuvem” de REaaS, SaaS, Paas, IaaS, etc., ou pensarmos de forma disruptiva em modelos híbridos on-line e off-line, numa simbiose entre o mundo virtual e o real, capazes de responder de forma mais versátil e, eventualmente mais eficaz em cenários de caos?
“Tentar fazer o que seus concorrentes estão a fazer, mas basicamente um pouco melhor, provavelmente não será uma estratégia vencedora. O desafio é desenvolver o que seus concorrentes nem considerariam fazer.”
Jamais Cascio







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