“Trata-se de perguntar: ‘Como é que o nosso destino turístico pode receber os visitantes que nos procuram, garantir que têm uma boa experiência, e que, em simultâneo, o fazem de uma forma que não esgota os nossos recursos e que, na verdade, beneficia o lugar e a comunidade local’…”
Audrey Scott, Uncornered Market
Depois de, no artigo anterior, ter enquadrado o fenómeno do sobreturismo, identificado os impactes negativos na qualidade de vida dos residentes e na própria experiência turística, as perspetivas divergentes dos diferentes stakeholders e ter dado pistas sobre a exigência de uma abordagem multifacetada para resolver um desafio muito complexo, abordarei agora a importância da determinação da capacidade de carga de um destino turístico, a necessidade da monitorização contínua dos impactes do turismo e a exigência de ajustar permanentemente as políticas de gestão para garantir a sustentabilidade do destino a longo prazo, sem esquecer as medidas que importa adotar por forma a mitigar os efeitos negativos do sobreturismo, incluindo alguns exemplos de boas práticas internacionais.
Tipicamente, a capacidade de carga de um destino turístico refere-se ao número máximo de turistas e/ou visitantes que um determinado destino pode suportar sem causar impactes negativos significativos no ambiente, na sociedade local ou na qualidade da experiência turística. Este conceito está portanto intrinsecamente ligado ao fenómeno do sobreturismo, que ocorre quando o número de turistas excede a capacidade de carga do destino.
Diversos fatores influenciam a capacidade de carga de um destino, incluindo:
- Recursos naturais: A disponibilidade de água, a qualidade do ar, a biodiversidade e a capacidade de absorção de resíduos são fatores limitantes para o número de visitantes que um destino pode receber;
- Infraestrutura: A capacidade de alojamento, transporte, saneamento básico e outros serviços essenciais determina também o número de turistas que um destino pode acomodar confortavelmente.
- Cultura local: A tolerância da comunidade local à presença de turistas, a preservação do património cultural e a autenticidade da experiência turística são aspetos importantes a considerar; e
- Gestão do destino: As políticas para o setor do Turismo, o ordenamento do território, a regulamentação das atividades turísticas e o investimento em infraestruturas sustentáveis influenciam também a capacidade de carga do destino.
Naturalmente, a determinação da capacidade de carga de um destino turístico pelas DMO’s (Destination Management Organizations) é sempre um processo muito complexo que exige uma análise cuidadosa dos diversos fatores envolvidos, sendo importante monitorizar continuamente os impactes do turismo e ajustar as políticas de gestão para garantir a sustentabilidade do destino no longo prazo.
Como vimos no artigo anterior, o sobreturismo tornou-se um fenómeno global, afetando principalmente destinos populares na Europa e Ásia. O índice de sobreturismo de 2024 da Evaneos destaca cinco clusters de destinos com diferentes níveis de exposição:
- Turismo balnear: Alta concentração de turistas em áreas costeiras, destinos sol & mar com forte dependência económica do turismo (exemplos: Bali, Chipre e Grécia).
- Principais destinos turísticos europeus, com apelo global: Alta exposição ao sobreturismo na época alta, mas com esforços consideráveis por parte de todos os stakeholders em termos de sustentabilidade (exemplos: Itália, Espanha e França).
- Turismo de cidade: Elevada concentração de turistas em pequenas áreas geográficas, com foco em pontos de interesse específicos (exemplos: Amesterdão, Seul e Estocolmo).
- “Destinos em observação”: Realidades diversificadas, com alguns destinos a apresentar densidades aceitáveis, mas com necessidade de monitorização da dependência do turismo (exemplos: Islândia, Índia e México).
- Destinos Preservados: Baixa exposição ao sobreturismo devido à vastidão territorial e menor dependência económica do sector do turismo (exemplos: Argentina, Brasil e Finlândia).
Note-se que a pandemia COVID-19 teve um impacte algo ambíguo no sobreturismo, alternando entre uma redução inicial, pois as restrições de viagem resultaram numa diminuição drástica do número de turistas, oferecendo um alívio temporário a alguns destinos turísticos; e o retorno acelerado, na medida em que o gradual levantamento das restrições desencadeou uma procura de viagens reprimida, levando a um retorno rápido e intenso do turismo, agravando o problema pré-existente em alguns destinos.
Mudando o foco do marketing para a gestão de fluxos, um crescente número de DMO’s (Destination Management Organizations) em todo o Mundo tem implementado diversas medidas de combate ao sobreturismo, assentes num rigoroso planeamento estratégico e numa forte colaboração entre todos os stakeholders, com resultados positivos na redução do congestionamento e na promoção de práticas de turismo responsável, assim equilibrando as necessidades dos visitantes com as dos residentes e do meio ambiente, tornando-os mais sustentáveis nos médio e longo prazos.
As diversas medidas de mitigação do impacte do sobreturismo incluem, nomeadamente, as seguintes:
- Implementação de regulamentos e restrições à capacidade através da limitação do número de camas turísticas, da cobrança de taxas turísticas de entrada ou permanência, o estabelecimento de quotas para visitantes, a imposição de restrições às plataformas de aluguer de curta duração e a regulamentação dos cruzeiros.
- Amesterdão (Países Baixos): Com o objetivo de diminuir o congestionamento e a poluição, além da proibição de autocarros turísticos no centro da cidade, Amesterdão reduziu o número de cruzeiros de 190 para 100 até 2026, e tornou obrigatória a utilização da energia fornecida pelo porto a partir de 2027.
- Barcelona (Espanha): Para combater o aumento dos preços das casas e a gentrificação, Barcelona introduziu fortes restrições a novos alojamentos locais e às plataformas de aluguer de curta duração. Adicionalmente, retirou diversos percursos de autocarro, populares entre turistas, do Google Maps e proibiu filmar em algumas zonas da cidade.
- Dubrovnik (Croácia): Com o objetivo de proteger o património histórico e a qualidade de vida dos residentes, Dubrovnik implementou um sistema de quotas para limitar o número de visitantes diários.
- Veneza (Itália): Para reduzir o congestionamento e gerar receitas para a gestão do turismo, Veneza introduziu uma taxa turística de acesso para visitantes diurnos, limites ao tamanho dos grupos turísticos e proibiu os navios de cruzeiro no centro histórico.
- Machu Picchu (Peru): Com o objetivo de proteger o sítio arqueológico e garantir uma experiência de qualidade, o número de visitantes diários é limitado através de um sistema de bilhetes com horários específicos.
- Monte Fuji (Japão): Para controlar o fluxo de visitantes e proteger o ambiente natural foram introduzidas taxas turísticas de acesso e construídas barreiras visuais nos pontos turísticos mais populares.
- Promoção de Destinos Alternativos e Viagens Fora da Época Alta: Para aliviar a pressão sobre os pontos turísticos mais populares, é fundamental incentivar os turistas a explorarem destinos menos conhecidos e a viajarem fora da época alta.
- Antuérpia (Bélgica): Para evitar a concentração de visitantes em zonas específicas de Amesterdão e Bruges, estas cidades têm promovido atrações menos conhecidas, incentivando os turistas a explorarem atrações próximas como a cidade de Antuérpia, que se tem destacado como destino alternativo àquelas, oferecendo uma experiência única com menos multidões.
- Grécia: Com o objetivo de reduzir a pressão sobre os destinos mais populares durante os períodos de maior afluência a Grécia incentiva as viagens fora da época alta através da criação de itinerários e da promoção das regiões menos visitadas.
- Promoção do Turismo sustentável e envolvimento da comunidade Local: A educação dos turistas sobre práticas de turismo responsável e o apoio a empresas locais que promovem atividades sustentáveis são medidas importantes para minimizar o impacte negativo do turismo. Por outro lado, as comunidades locais devem ser envolvidas no processo de tomada de decisões sobre Turismo, para garantir que as suas necessidades e preocupações são consideradas no planeamento estratégico a na gestão do destino turístico.
- Amesterdão: Campanha online “Stay Away” direcionada a grupos problemáticos.
- Copenhaga (Dinamarca): O programa “CopenPay” incentiva o uso de transportes públicos e bicicletas, oferecendo benefícios aos turistas que optam por estas alternativas. A iniciativa tem sido bem-sucedida em promover a sustentabilidade e melhorar a experiência turística.
Last but not the least, importa notar que os visitantes e os turistas também têm um papel muito importante na minimização do impacte do sobreturismo, nomeadamente através de:
- escolhas mais conscientes, como viajar fora da época alta,
- opção por destinos menos conhecidos e procurados,
- apoio aos negócios locais e sustentáveis, e
- respeitar o ambiente e a cultura local.
Em conclusão, nota-se que a implementação por DMO’s (Destination Management Organizations) de medidas para gerir o sobreturismo deve ser acompanhada de uma avaliação contínua dos seus impactes e de ajustes permanentes na estratégia, se necessário. A efetiva colaboração entre os diversos stakeholders, a permanente educação dos turistas e o foco na promoção de práticas de turismo responsável, são elementos cruciais para o sucesso a longo prazo de qualquer estratégia de minimização dos impactes do sobreturismo.







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