A qualidade como paradigma do turismo português

Recentemente, li o título de um artigo que dizia mais ou menos o seguinte: ”Qualidade do turismo não se faz apenas com bons hotéis. Precisa de uma liderança forte”.
Já uma vez escrevi sobre a qualidade do turismo português (A qualidade como paradigma do Turismo Português – Outubro de 2013), em que defendi todo o trabalho que desde 1970 foi feito no seu desenvolvimento. Neste desenvolvimento, a qualidade foi sempre uma preocupação presente. Escrevi sobre a qualidade dos hotéis e a necessidade de uma formação hoteleira adequada e da promoção do país. Mas outros aspectos são tão ou mais importantes que estes. 
Para mim, a qualidade de um destino compõe-se de três vertentes muito importantes: a capacidade de fixação do turista, a capacidade de atracção desse mesmo turista e o seu acolhimento.
Estas três vertentes têm que ser implementadas com muita perseverança ao longo de todo o processo de consolidação de um qualquer destino turístico.
E foi isso que se passou em Portugal ao longo dos últimos cinquenta anos. Já escrevi sobre a implementação da capacidade de fixação. Importa agora referir os dois restantes aspectos.
Quando se fala de atracção turística, consideram-se todos os aspectos que levam o turista a demandar um determinado destino. E esta atracção prende-se com o próprio conceito de turismo que se poderá definir como “A visita do Homem ao outro Homem”. Neste conceito de visita, emerge uma necessidade de conhecimento de um povo que se criou e desenvolveu durante um determinado espaço de tempo e confinado a um território específico. Assim, todos os aspectos que levam ao conhecimento desse povo têm necessariamente de estar incluídos neste conceito de atracção. Temos todo o património construído ao longo dos tempos, a sua história, os seus usos e costumes, a sua gastronomia e o território com a sua paisagem e o seu clima. Ao conjunto de todos estes aspectos chamamos o produto turístico desse destino,
Importa então ordenar e trabalhar todo este produto, por forma a prepará-los para uma adequada fruição por parte dos turistas. Em todos estes itens gostaria de referir a importância que o património e a sua história assumem neste produto turístico. Normalmente é o que mais atrai o turista e é também o que mais identifica a história de um povo. E o turista quer conhecer todos estes aspectos. Temos por isso que “tratar dele”. Recuperar, manter e estruturar para que, ao ser visitado, possa contar devidamente a sua história. Por outro lado, há também a parte económica. O pagamento destas visitas contribui para suportar os custos da sua manutenção. E temos de nos consciencializar desta importância, para a população residente que tanto reclama contra estes pagamentos.
Nesta linha de ideias, gostaria de realçar o excelente trabalho feito pela Sociedade Monte da Lua, com a manutenção e exploração de todo o património em Sintra. Quem conheceu aquela zona no fim do século passado e a vê agora não pode deixar de se orgulhar pela forma como todo o património nos é apresentado actualmente. O excelente estado de conservação de todo o edificado, a preservação dos parques que o envolvem e a forma racional como é explorado é um óptimo exemplo do modo como se deve actuar nesta área. Aliás, este exemplo está a ser já utilizado noutros locais como forma de valorizar e explorar o nosso património. E gostaria que não interpretassem mal quando falo de exploração. Este aspecto é fundamental para que o património seja um testemunho da nossa história para as gerações futuras e elas agradecer-nos-ão por isso.
O mesmo se aplica a todos os recursos naturais. É um potencial endógeno que importa preservar. A boa utilização dos espaços ambientais e a forma como se poderão articular com o património fazem parte da intervenção global que tem de ser implementada sem receios e de forma firme. É com muita preocupação que assisti aos recentes fogos no nosso país. Aos mais diversos motivos que transformam estes acontecimentos em verdadeira tragédia, acresce o facto de transformar a paisagem e torná-la muito pouco ou mesmo nada atractiva.
O terceiro aspecto prende-se com o acolhimento aos turistas. Qualquer pessoa que eu convide para minha casa só se sentirá bem se eu e toda a família a acolhermos bem. Ora esta realidade também se passa com o turismo. Para que o turista se sinta bem num determinado destino, é fundamental que a população local o acolha bem. E, embora mais difícil pois não depende só de nós, é um trabalho que se pode fazer com a população, nomeadamente mentalizando as pessoas para a importância do turismo na economia nacional e sobretudo para a forma de tratamento dos turistas. Recordo o excelente trabalho feito na Ilha da Madeira durante as décadas de 70 e 80, em que se conseguiu mentalizar a população para a importância do turismo, e a forma como não só tratavam os turistas como também mantinham a cidade e as vilas muito limpas. Era um trabalho da população e esta mentalização faz-se diariamente através de todos os meios de comunicação à disposição. 
Mas para que tudo isto seja uma realidade, é necessária uma liderança forte que coordene todo este trabalho, juntando à mesma mesa todos os actores e sobretudo que todos “falem a uma só voz”. E a preparação da população para podermos sermos um destino de qualidade é fundamental.
Que todos nós sem excepção possamos desempenhar o nosso papel neste objectivo nacional.
Por Rui Soares Franco
Consultor Turismo
Por opção pessoal, o presente artigo não foi escrito com base no novo acordo ortográfico.

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