Assistimos nos últimos dias a um conjunto de acontecimentos que têm provocado uma autêntica montanha russa nos mercados financeiros. Ainda há dias escrevia sobre a maior queda diária nos mercados financeiros norte-americanos. Pois os mercados, dois dias depois, trataram de corrigir essas quedas abruptas e alguns deles observaram subidas de 2 dígitos, como foram os casos do PSI-20 e do IBEX-35.
As razões inerentes às quedas verificadas relacionavam-se, ao que parece, com um problema informático nos índices norte-americanos mas, obviamente, muita relação havia com os problemas da dívida soberana grega e do risco de contágio a outras economias europeias.
Já quanto à subida em flecha dos mercados, esta ocorreu logo após o anúncio por parte da União Europeia da constituição de um fundo europeu de emergência para auxílio a economias europeias em necessidade.
Antes de mais, permitam-me uma palavra sobre estas oscilações vertiginosas nos mercados. Fico tão apreensivo com descidas de 5% ou 10% nos mercados, como com subidas de 5% ou 10%. O princípio é o mesmo: nos mercados financeiros não há criação de riqueza, existe apenas transferência de riqueza. Se um índice desce 5%, é porque alguém perdeu 5% e alguém ganhou 5%. Se o mesmo índice sobe 5%, o mesmo acontece. Não é possível todos ganharem ou perderem ao mesmo tempo, nos mercados financeiros, existe sempre um lado ganhador e outro perdedor. Por isso é que existem bolhas: quando os mercados sobem demasiado, é como um copo cheio de água e esta começa a transbordar, é inevitável. A bolha rebenta!
No que diz respeito ao risco das dívidas soberanas, esta subiu mais no mercado secundário, não tanto no mercado primário (veja-se a mais recente emissão feita pelo Estado Português, um sucesso a 4,5%).
O que é que isto significa? Os Estados emitem dívida pública através da venda de Obrigações do Tesouro (OT’s), por exemplo. Fazem-no em mercado primário, ou seja, através de leilões que realizam junto de investidores institucionais. Executado o leilão, essas obrigações podem depois ser transaccionadas no chamado mercado secundário, tal como as acções são transaccionadas após um IPO. Se existe receio no mercado relativamente à possibilidade de default de um Estado, as yields dessas OT’s subirão no mercado secundário representado uma desvalorização do título (a OT). Naturalmente, este acréscimo de risco transmitir-se-á para o mercado primário, dificultando a colocação primária de dívida soberana no mercado, encarecendo-a.
Quanto às medidas recentemente tomadas pela União Europeia, e que vieram provocar uma subida em flecha das cotações em todos os mercados mundiais, basicamente aquilo que se está a procurar fazer é tornar o Banco Central Europeu (BCE) numa entidade europeia mais activa nos mercados, procurando controlar não só a estabilidade da moeda, como também a estabilidade financeira da União Europeia. Como? Através da compra, em mercado secundário, de OT’s de Estados Europeus, procurando “controlar” eventuais movimentos especulativos que provoquem a subida das yields.
Pessoalmente, parece-me uma boa medida se o objectivo é, efectivamente, manter a União Europeia como uma união económica, financeira e monetária. Conseguindo isto, o passo seguinte será naturalmente procurar aspectos conciliadores que permitam atingir, no futuro, uma união política. O problema passa, para mim, pela cobertura ao BCE. Quem cobre o risco de falência do BCE?
Vejam bem: em 2007 e 2008 tivemos um problema de dívida nos mercados imobiliários mundiais, principalmente no mercado norte-americano. O que é que se fez? Transferiu-se dívida que era privada (dos bancos, dos hedge funds, etc.) para os Estados – veja-se o exemplo da Fannie Mae e Freddie Mac ou do que se passou na indústria automóvel ou de todos os bailouts que ocorreram.
Passados 2 anos, o mercado está a “penalizar” isso mesmo: agora são os Estados que têm mais risco – ficaram com a dívida que antes era privada, a recessão retirou-lhes riqueza e impostos e as suas próprias necessidades de financiamento aumentaram. Para amenizar esta situação, o que se faz? Acrescenta-se e transfere-se mais dívida! Dívida essa agora coberta pelos bancos centrais. Não é só o BCE que está a tomar uma acção enérgica e directa sobre os mercados de dívida; a FED já o fez o ano passado ao comprar CMBS ou aceitá-los como colateral de dívidas. O BCE está a fazer exactamente o mesmo, agora.
Para não me alongar mais, julgo que é aqui que agora estamos, ou seja, no topo da pirâmide. Acima deste topo, não há mais por onde escalar. Caso o BCE e a FED falhem, não há mais entidades a quem recorrer. Ou haverá?
É claro que sim… aos contribuintes que no final pagarão toda esta dívida pelo aumento de impostos. IVA sobe, IRS e IRC sobem. «Elementar, caro Watson», diria o outro.
Bons negócios (imobiliários)!

4 Comentários
Anónimo
14 de Maio, 2010, 9:45Caros colegas do imobiliário e das Finanças,
REPLYO enfoque no "Real Estate" enquanto valor real, garantido e seguro perdeu-se por razões diversas, bolhas especulativas, re-hipotecas, desiquilibrio por parte da oferta, fiscais por passar a ser considerado um rendimento do Trabalho ao invés de Capital; após o qual se tem assistido a uma desorientação na maior parte do mundo desenvolvido – aonde a perda deste paradigma se conjuga mais intensamente, com a volatibilidade dos mercados, incremento das notações de risco e das taxas fiscais. Curiosamente o ouro, outra "commodities" escapa. Valerá a pena reflectir sobre o tema: a perda da confiança no imobiliário enquanto activo seguro estará na origem desta crise global?
Gonçalo Nascimento Rodrigues
14 de Maio, 2010, 10:11Caro Anónimo (assinem os posts, por favor!),
Não, não me parece. Não me parece que haja sequer uma tão grave crise de confiança relativamente a uma suposta segurança no investimento imobiliário.
O que há, sim, é uma maior selecção, passando desde logo pelo não investimento na maior parte dos activos de promoção.
O dinheiro disponível é mais escassso, logo mais selectivo, e procura activos de refúgio. O imobiliário de rendimento prime, com boa localização e bons tenants, parece-me a mim manter os mesmos fundamentais que mantinha antes da crise.
REPLYPedro Matos
16 de Maio, 2010, 10:52Caros Mestres,
Todos os que agora opinam nos media, sobre a crise financeira, a estabilidade do euro, e o futuro que que há-de vir, onde estavam quando foi tomada a decisão do cambio de EUR 1.00 = PTE 200.482 ?
Não me recordo de alguém ter posto em causa este cambio.
Qual foi a personalidade portuguesa que realmente o estudou?
Todos sabemos como são tomadas as decisões em grupo. Ninguém se debruça seriamente no estudo da questão, pois a decisão pertence a um colectivo.
Qual é o problema de sair do euro?
Qual é o problema de abandonar a U.E.?
Será que o Brasil tem interesse numa nova união?
É bom não esquecer que foram mais de 300 anos de economia comum, e até falamos a mesma lingua.
Saudações a todos,
REPLYPedro Matos
Gonçalo Nascimento Rodrigues
17 de Maio, 2010, 13:37Caro Pedro,
Essa do Mestre, não deve ser para mim porque ainda não tenho o grau, falta-me finalizar e entregar a tese lol
Quanto ao resto, a teoria económica diz-nos que estas crises se resolvem desvalorizando a moeda. Como estamos no Euro, a alternativa será "desvalorizar" aquilo que podemos, ou seja, salários.
Mas tomando como alternativa aquela que propõe – sair do euro – pergunto-me: a quem exportaríamos produtos denominados em escudos, quem os compraria? Quanto nos custaria dívida denominada em escudos? Quanto custaria a uma empresa negociar derivados que lhe permitissem cobrir riscos cambiais com o escudo?
E quem confiaria numa Nação, que ora está na União Europeia, ora se une ao Brasil, ora amanhã se associa a Angola?
Quanto ao resto, nunca fui muito adepto do quem fez, quem pensou, ai e se assim ou assado… diagnósticos à posteriori ou posturas do "bem te disse", não é lá muito comigo.
Prefiro aprender com os erros e olhar em frente. Esta é a realidade, este é o nosso Mundo. É nele que temos de viver, é nele que temos de pensar, é por ele que temos de trabalhar.
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