Vale a pena investir nas OTRV?

Nem só de imobiliário vivem os investimentos. Num mundo financeiro tão global e com tantas alternativas de investimento, e na actual conjuntura, há que estar alerta para as oportunidades e alternativas.

Hoje falaremos de obrigações, mais concretamente das OTRV – Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável. O investimento em obrigações apresenta um perfil de geração de cash-flows algo similar ao commercial real estate: investimento inicial, cupão periódico, desinvestimento final (resgate).
Tem, no entanto, riscos diferentes. Em grande parte dos casos, o resgate final é equivalente ao valor da subscrição inicial, logo trata-se de um produto que ao contrário do imobiliário não apresenta risco de valor residual. Tem, por seu turno, um risco de emitente, ou seja, o risco de no momento do resgate, a entidade emitente não ter capacidade para reembolsar os investidores.
Vem este tema a propósito do recente lançamento de obrigações do tesouro ao público em geral – as OTRV. Genericamente, tratam-se de obrigações de cupão variável, com uma  maturidade de 5 anos e rentabilidade mínima, bruta e nominal, de 2,2%, que poderá ser superior consoante a evolução da Euribor a 6 meses (actualmente negativa). O cupão é pago semestralmente e os títulos podem ser vendidos, a qualquer momento, em mercado secundário (sujeito, claro está, à liquidez e preço em cada momento). Como produto financeiro que é vendido ao público em geral, através da Banca, está sujeito a comissões – de subscrição, custódia, pagamento de juros e resgate final.
O Estado tem, desde há alguns anos, outro produto de aforro em subscrição no mercado – os certificados do tesouro poupança mais. Trata-se de um produto de aforro, com maturidade também a 5 anos, e taxa de juro crescente (1,25% no 1º ano, crescendo 0,5 pp ao longo dos 4 anos seguintes). Tem liquidez após o 1º ano, sem qualquer tipo de custos.
Comparando um e outro produto, pergunto-me: o que levará um investidor a investir em OTRV’s quando tem os certificados? As razões que encontro são essencialmente as seguintes:
  • Expectativa de subida de indexantes (leia-se, taxas Euribor) no curto, médio prazo;
  • Maior necessidade de liquidez, investimento de prazo mais curto;
  • Não pretender levar investimento até à maturidade;
  • Expectativa de valorização dos títulos em mercado secundário.
Assim, ou um investidor acredita que estas condições se venham a aplicar, ou então não encontro qualquer sentido no investimento nas OTRV.
Assumindo um investimento de € 10.000, as OTRV apresentam uma rentabilidade de 1,53%, para uma maturidade de 5 anos, idêntica aos dos certificados do tesouro poupança mais. É, então, bastante inferior, devido aos custos que se incorre com esse investimento. Dado que parte desses custos são fixos (comissão de custódia de títulos), as OTRV exigem um investimento de montante superior. No entanto, nunca geram uma rentabilidade idêntica aos certificados, num prazo de 5 anos.
Para prazos entre 2 e 4 anos, o diferencial entre rentabilidades aproxima-se. No entanto, para que sejam idênticas, há que investir sempre bastante mais nas OTRV do que nos certificados (para se poder diluir os custos). Para prazos e valores de investimento idênticos, bastará uma ligeira valorização dos títulos em mercado secundário para que as rentabilidades se igualem. O gráfico seguinte procura resumir tudo isto:
Em suma, investir em OTRV em detrimento dos certificados poupança mais só se tiver necessidade de liquidez imediata ou se estimar uma subida dos indexantes no curto prazo. Caso acho que os títulos poderão valorizar, também deve optar pelas OTRV. Caso contrário, não é racional o investimento.
Bons negócios (imobiliários)!
Por Gonçalo Nascimento Rodrigues
Main Thinker, Out of the Box

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