De uma forma geral, a indústria hoteleira divide-se entre hotéis independentes ou de pequenas cadeias locais/regionais, que juntam hotéis com conceitos e propriedades únicas e originais, e grandes cadeias e marcas hoteleiras cujas propriedades, dentro de cada marca, são padronizadas.
O que mudou para tornar os hotéis independentes relevantes num mundo em que as grandes marcas eram sinónimo de qualidade e padrão?
Por via da globalização, o mundo sofreu grandes mudanças que permitiram, nomeadamente, que viajar e descobrir novos destinos fosse muito mais fácil e acessível. Para que esta mudança nos hábitos de consumo tenha sido possível, aconteceram algumas grandes mudanças na forma como nós passámos a escolher os destinos e a adquirir viagens.
O aparecimento da internet e das agências de reservas online (OTAs) permitiu nivelar um campo que favorecia as grandes cadeias de hotéis. Para onde íamos, onde ficávamos e o que fazíamos durante as nossas viagens de lazer (e negócios) era maioritariamente definido pelas agências de viagens, operadores turísticos e algumas grandes cadeias de hotéis, com orçamentos de marketing que permitiam usar os grandes meios de distribuição, como a televisão, jornais e feiras para chegar ao consumidor.
Com o aparecimento da internet e das OTAs, os pequenos hotéis independentes conseguiram passar a ter um alcance global, e praticamente ilimitado de consumidores, ao mesmo custo do que qualquer uma das grandes cadeias de hotéis. Para compreendermos o nível de disrupção que isto causou no mercado, seria o mesmo que comparar a possibilidade de uma pequena marca de roupa portuguesa conseguir uma montra na Av. da Liberdade sem custos fixos adicionais para o negócio. Doutra forma esses clientes muito dificilmente iriam descobrir o hotel e para o hotel esse aumento de exposição não implica qualquer capex ou um custo fixo por disponibilizar o seu inventário, para além duma comissão pela venda de cada quarto.
Além disso, a forma de ganhar destaque nas OTAs, (que não seja feito através do aumento da comissão e disponibilização de inventário para campanhas de desconto), é feita através da quantidade e qualidade dos comentários e pontuações que os clientes deixam após a sua estadia. E aqui, pela maior proximidade à essência local e flexibilidade para uma maior customização da experiência, os hotéis independentes conseguem capitalizar nas pontuações dos seus clientes, que agora mais que nunca, procuram essa originalidade e emoções sinceras e transformadoras.
Por sua vez, o aparecimento das companhias low cost veio exponenciar a vontade de viajar e conhecer novos destinos, menos conhecidos e visitados, possibilitando viajar muito mais vezes a um custo muito mais baixo.
Se a tudo isto juntarmos uma maior acessibilidade à estética e design, por via da globalização, o desenvolvimento de propriedades esteticamente interessantes e originais, a um custo mais baixo do que nunca, tornou-se mais acessível a proprietários, investidores e operadores, que pela sua escala, têm acesso a menos capital.
A obsessão com a origem e a originalidade
Por outro lado, há uma nova geração bastante mais consciente das suas individualidades e com vontade de afirmar a sua singularidade, através da procura por emoções e experiências únicas e transformadoras, evitando a todo o custo um produto padronizado e industrial.
Os viajantes de hoje esperam das suas viagens e dos lugares onde ficam, que haja um elevado grau de customização e adaptação às suas necessidades e vontades. E uma das grandes vantagens dos hotéis independentes é, justamente a sua flexibilidade para se adaptarem e personalizarem as experiências e serviços que oferecem, ao contrário das grandes cadeias cujos processos, procedimentos, conceitos e marketing são estabelecidos centralmente e na maioria das vezes sem compreenderem o destino e os seus clientes, confiando que a sua marca reconhecida internacionalmente é o suficiente para atrair e reter clientes.
Para combater esta vantagem dos hotéis e pequenas cadeias locais, as grandes cadeias tentam introduzir elementos locais nos seus projectos, seja por via da utilização de alguns materiais no design e na construção das unidades ou ainda usando produtos locais nas ementas dos seus restaurantes. Aquilo a que chamamos glocalização. Mas a verdade é que eles só conseguem ir até um determinado ponto (todos sabemos o quão difícil é o McDonalds conseguir passar a imagem de que é saudável), porque doutra forma as vantagens económicas da sua escala e das sinergias de grupo seriam totalmente perdidas.
Por fim, esta flexibilidade dos operadores de hotéis independentes traduz-se numa maior facilidade de dialogar com os proprietários /investidores. Para além dos enormes custos de set-up que as grandes cadeias cobram aos proprietários, trazem consigo um conjunto infindável de regras e procedimentos, que além de muitas vezes serem pouco relevantes em contextos locais, implicam muitas vezes mais custos directos no desenvolvimento da unidade. É inegável que as máquinas de marketing das grandes cadeias conseguem trazer um enorme tráfego de clientes para a propriedade mas tal tráfego tem um custo associado. E fazendo bem as contas aos royalties, fees de marketing, e outras obrigações contratuais, como a participação em programas de fidelidade e campanhas de promoção/desconto é muito provável que, apesar das taxas de ocupação mais altas, o “bottom line” seja menos interessante.
A acessibilidade associada à mudança nos interesses por novos destinos e/ou novas formas de visitar um destino convencional, explicam em grande medida o aumento do interesse em hotéis independentes, cujo activo principal é a liberdade para a criação de conceitos com originalidade e com uma ligação e integração na comunidade local, possibilitando a criação de laços e ligações emocionais e sinceras.







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