O Mercado de Trabalho Turístico Inclusivo

A Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21 (APPT21) é uma associação que tem, entre outros objectivos, a procura de soluções que tornem as crianças e jovens portadores de trissomia 21, cada vez mais autónomos.
Se em relação às crianças já existem muitas técnicas e soluções de educação para a autonomia, já para os jovens o problema é mais complexo.
Nesta senda, desde 2014 que a APPT21 está envolvida no “Projecto OMO: On My Own at Work” em colaboração com parceiros espanhóis e italianos, num projecto que visa a inserção de pessoas com Perturbação do Desenvolvimento Intelectual (PDI) e melhorar o acesso a ofertas de postos de trabalho e de formação para estes cidadãos.
A metodologia envolve a criação e utilização de uma App que permite a autonomia do estagiário no posto de trabalho e uns vídeos construídos ad hoc com o intuito de melhorar a relação do indivíduo com PDI com os colegas e tutores. Ao longo do estágio, o estagiário tem um tutor que o acompanha.

Numa 1ª fase, a associada Italiana (AIPD – Associazione Italiana Persone Down) e a APPT21 seguiram 8 jovens adultos com Trissomia 21 (T21), 4 portugueses e 4 italianos numa experiência de estágio (camareiro/a e ajudante de cozinha) em estabelecimentos hoteleiros para observarem as dificuldades e boas práticas de modo a desenvolverem e implementarem a App e vídeos.
Numa 2ª fase envolveram-se 8 jovens adultos (4 portugueses e 4 italianos) num estágio para testar a App e os vídeos junto dos tutores hoteleiros.
Em 2016 a APPT21 selecionou 15 jovens com PDI para iniciar um estágio formativo na hotelaria e restauração durante os meses de Fevereiro e Março para testar estes instrumentos que se vieram a revelar muito enriquecedores quer para o estagiário quer para o seu tutor.
Os vídeos apresentam temáticas relacionadas com as principais dificuldades e potencialidades e também das boas práticas a utilizar na relação com os estagiários e destinando-se aos tutores e equipa que acolhe os jovens.
A App destina-se ao estagiário e é personalizada, visando a organização da semana de trabalho, o dia de trabalho, as acções a desenvolver para realizar uma tarefa através de uma checklist, sob a forma de texto escrito, imagens e vídeos. Esta App é gerida através de um PC no qual o tutor vai inserindo ou retirando conteúdos.
De uma forma geral este é o projecto que a APPT21 está a desenvolver para poder tornar o mercado de trabalho turístico um “mercado inclusivo”.
Na presente fase do projecto que está em fase última de conclusão (Maio de 2017) a APPT21 procura unidades hoteleiras, de restauração e associações que permitam a jovens com PDI iniciar uma experiência profissional ao mesmo tempo que lança as sementes para uma rede de cariz nacional. Para estes propõe a assinatura de um código de conduta e um manual de boas práticas que lhes permitem o acesso a um selo de empresa inclusiva, o Valueable, agente capaz e de valor.
Para viabilizar a parceria, a entidade hoteleira deverá acolher e enquadrar um jovem com PDI, envolvendo-o numa experiência profissional e possibilitar um estágio com uma carga horária total de 250 horas, 20 horas semanais, e colocar à disposição um tutor de referência que siga o jovem e tenha a responsabilidade de mediação com a APPT21.
Em termos gerais é este o projecto e que apresenta já resultados positivos. Muitas unidades hoteleiras incluindo algumas cadeias hoteleiras e unidades de restauração aderiram a este projecto e com resultados encorajadores.
Pelo conhecimento que tenho, por motivos profissionais, das várias tarefas existentes nas unidades hoteleiras e de restauração e, por motivos familiares, da problemática destes jovens portadores de T21, vejo neste projecto uma porta aberta para que estes jovens possam vir a adquirir alguma autonomia. São jovens empenhados no que fazem, persistentes, que apreendem com enorme facilidade tarefas rotineiras e muito cumpridores, logo com muito potencial para um óptimo desempenho na hotelaria e restauração.
A esperança de vida destes jovens tem vindo a aumentar ao longo dos últimos anos, o que levanta um grande problema às suas famílias: o que fazer destes jovens após a perda dos seus pais. Tenho assistido a grandes angústia de pais que não sabem o que irá acontecer aos seus filhos quando eles desaparecerem. Para estes pais, mesmo com algumas soluções, a angústia é muito grande. Se conseguirem que eles adquiram alguma autonomia financeira através do trabalho, é muito bom para eles, para quem se responsabilize por eles após o desaparecimento dos pais e para os pais saberem que os seus filhos terão algo com que sobreviver e não serão uma sobrecarga total para quem com eles fique. E a sociedade terá uma palavra a dizer nesta matéria.
Este projecto, de ambição nacional, de partilha e cooperação de práticas a nível europeu, é pioneiro e pretende desbravar um tabu que permanece nas famílias, sociedades e instituições de que estes são jovens incapazes, dando-lhes um ponto de partida que de outro modo não terão e oportunidade de provarem isso mesmo com o seu desempenho e dedicação. As sociedades equitativas terão de ser inclusivas, cabe a cada um assumir o seu papel em moldá-las.
Espero sinceramente que os agentes económicos da área do turismo não fiquem indiferentes a esta temática. 
Por Rui Soares Franco
Consultor Turismo e Hotelaria

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