Os problemas de saúde pública criaram ao longo da história oportunidades de repensar modelos de urbanização e introduzir elementos de inovação e mudança que moldaram a cidade contemporânea. O período de pandemia e a consequente adoção de um regime de trabalho misto poderá representar um momento similar com impacto a longo prazo no modo como planeamos, requalificamos e protegemos as nossas cidades. Esse modelo de trabalho misto, com a junção da ida ao escritório com um trabalho remoto produzirá efeitos nos centros urbanos e modelos de organização territorial.
O estudo ‘Lar, Doce Escritório’ elaborado pela SHL Portugal e pela S+A Capital com o patrocínio da Vanguard Properties em parceria com o Expresso analisou o impacto do trabalho remoto e as suas implicações para as competências dos trabalhadores, espaços de trabalho, residências e centros urbanos.
Os resultados do inquérito efetuado indicam a probabilidade de uma adoção abrangente de um regime de trabalho misto e uma alteração significativa, não na localização das habitações, mas das preferências sobre as suas características e da sua envolvente. De acordo com a análise realizada, estima-se que adoção de um regime de trabalho misto, levará a uma valorização de características específicas das habitações e irá potenciar a reformulação das principais zonas urbanas centrais em simultâneo com o reforço e multiplicação de centralidades secundárias.
Quais os efeitos na habitação?
As conclusões do estudo apontam para a necessidade de adaptar os produtos imobiliários residenciais às novas preferências, e adaptar os centros urbanos às alterações previstas dos padrões de circulação e uso o que poderá ter um efeito catalisador para acelerar a inovação nos produtos residenciais, introduzir novas estratégias de revitalização urbana, e repensar as redes de transportes e equipamentos coletivos de acordo com um modelo de organização do território caracterizado por centralidades múltiplas.
Ao nível da habitação, o estudo aponta para um aumento de 25% na valorização das dimensões da habitação, acesso a zonas exteriores privadas e a espaços que permitam o trabalho remoto. A mudança observada nas preferências indica a necessidade de incorporar soluções espaciais que permitam uma maior autonomia de cada elemento do agregado familiar, e possibilitem uma utilização mais flexível dos espaços através de compartimentação e mobiliário adaptável valorizando a sustentabilidade das construções.
Deverá ser dada particular atenção aos espaços exteriores privados que deverão assumir proporções e características que permitam uma utilização mais intensa e abrangente, com um maior aproveitamento das coberturas e piso térreo através de soluções de fachada que permitam uma maior integração entre os espaços exteriores e os espaços interiores.
É também necessário repensar o programa das áreas de serviços comuns por forma a incorporarem zonas de trabalho e socialização que permitam a criação de comunidades entre os residentes. A sua localização deverá ser tendencialmente acimo do piso térreo através da combinação de espaços flexíveis com capacidade e utilização para usos múltiplos com espaços com condições para o trabalho remotos incorporando algumas das tendências mais recentes dos sectores alternativos como o ‘built-to-rent’ e o ‘senior-living’
As necessárias alterações nas cidades
O estudo aponta também para a necessidade do desenho dos espaços públicos envolventes aos projetos residenciais serem considerado uma componente intrínseca da sua promoção. O investimento no espaço público interconectado com as zonas de serviços comuns dos projetos pode criar novos espaços urbano estruturantes e contribuir para a revitalização dos espaços públicos em zonas de maior densidade urbana.
Deverão ser efetuadas intervenções de pequena escala sistemáticas que requalifiquem os espaços públicos existentes nos centros urbanos, incorporando ambientes naturais e os equipamentos de apoio que permitam uma utilização mais intensiva, e não somente decorativa.
Da mesma forma será desejável investir na criação de redes de vias pedonais e ciclovias que ofereçam não só uma opção de lazer adaptada às novas preferências, mas também uma alternativa e complemento à comutação diária nos novos percursos casa-trabalho.
A criação desta rede origina também a oportunidade de repensar a estrutura ecológica das cidades e introduzir corredores verdes interligados que possibilitem uma maior integração de rede natural e ecológica nos centros urbanos através da conversão de vias rodoviárias e espaços de estacionamento automóvel em novos espaços pedonais.
Deverá também ser repensada a utilização dos equipamentos urbanos coletivos através da implementação de estratégias que permitam a criação de espaços polivalentes com diferentes utilizações ao longo do dia, possibilitando poe exemplo que edifícios escolares sejam também campos de desporto e que bibliotecas ofereçam espaços para trabalho remoto.
O comércio de rua e serviços locais devem ser apoiados por forma exponenciaram os fatores diferenciadores e constituírem uma alternativa ao grande comercio de superfície e um complemento à compra online através da integração de pontos de entrega, e adequação da oferta à população local, e reformulação da sua utilização com maior uso do espaço público e integração com espaços de escritórios de menor dimensão.
Será necessário repensar as redes de transportes públicos de modo a permitir a sua adaptação aos novos padrões de utilização e criar novas ligações que sirvam os novos percursos casa-trabalho, nomeadamente com o reforço das ligações entre os centros urbanos secundários as respetivas periferias residenciais.
É necessário planear
Existe assim a oportunidade de planear novos modelos de organização territorial baseados em múltiplas centralidades, em que as atividades diárias nos centros urbanos secundários sejam alcançáveis num máximo de 15 minutos a pé. Deverá ser incentivada a competição entre localizações secundárias para atrair residentes que decidam sair das principais zonas centrais e promover o reequilíbrio das pressões de desenvolvimento em zonas de maior valor com o suporte ao investimento público e privado em zonas de menor atratividade e menos infraestruturadas.
A sua implementação requer um sistema de ordenamento territorial integrado e estratégico capaz de criar o contexto de certeza ao nível do licenciamento e de investimentos públicos necessários para diminuir o risco da promoção e atrair o investimento privado, de forma a assegurar a viabilidade económica dos projetos privados e, simultaneamente, benefícios públicos.
É também necessário promover a revisão da legislação relacionada com a habitação e edificações urbanas por forma a permitir a introdução de espaços adaptados às novas preferências de utilização e promover uma maior integração entre os instrumentos de ordenamento territorial desde a escala regional aos loteamentos urbanos por forma a promover uma abordagem estratégica e integrada – vez de fragmentada – ao modelo de desenvolvimento territoriais.
A adaptação dos centros urbanos e da oferta imobiliária às alterações causadas pelo trabalho remoto requerem uma resposta integrada e coordenada entre as entidades públicas e promotores imobiliários que permita alocar os recursos de forma eficiente em investimentos estratégicos que promovam um modelo de organização territorial baseado em centralidades múltiplas o que poderá também promover novas formas de cooperação e parceria entre o sector público e privado para o desenvolvimento urbano.







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