Reflexões sobre o fenómeno do sobreturismo

Reflexões sobre o fenómeno do sobreturismo

Os destinos turísticos recebem os turistas que merecem, não os que querem.”
Tom Jenkins, CEO da ETOA – European Tourism Association

Nos últimos anos, sempre que se fala ou escreve sobre Turismo, começa a ser inevitável abordar o tema do designado “excesso de turismo” ou sobreturismo (Overtourism em inglês). Porém, frequentemente, este assunto, apesar de exaustivamente estudado quer nos meios académicos, quer entre muitos dos stakeholders do sector do Turismo, tende a ser debatido de forma apaixonada, muitas vezes assente em perceções, preconceitos e até vieses ideológicos.

À semelhança de toda e qualquer atividade humana, o Turismo a “indústria da paz” proporciona muitos benefícios mas também gera externalidades (impactes negativos), deixando sempre algum tipo de “pegada” na economia, na sociedade e no ambiente. Apesar dos esforços de muitos dos principais stakeholders do Turismo – que têm crescentemente adotado políticas ESG para mitigação dos impactes da sua atividade – a verdade é que o fenómeno do sobreturismo não tem parado de se agudizar em diversos destinos turísticos, de lazer e urbanos, em todo o Mundo, levando algumas comunidades locais a adotar comportamentos anti-turismo, que colocam desafios relevantes às DMO’s (Destination Management Organizations) locais.

Importa notar que o Turismo organizado é uma atividade económica relativamente recente, mas crescentemente importante do ponto de vista económico e social para um número cada vez maior de países e populações em todo o Mundo. Efetivamente, todos os dados estatísticos disponíveis (OMT, WTTC, ETC, INE, etc.) evidenciam um crescimento histórico constante, apenas brevemente interrompido pela pandemia COVID-19, e apontam para a manutenção deste crescimento nas próximas décadas, acompanhando o crescimento populacional global e a melhoria das condições de vida de milhões de pessoas em todo o Mundo.

Desde sempre, o setor do Turismo tem sido um dos principais beneficiários de duas enormes “vagas de fundo” globais:

  • aumento do número de turistas resultante de mais habitantes no planeta Terra e do crescimento económico, este último fruto da combinação virtuosa de mais economia de mercado com regimes mais democráticos. O crescimento exponencial do rendimento disponível das famílias e do número de cidadãos bem informados, com as suas necessidades básicas satisfeitas, tornaram gradualmente as viagens uma necessidade adicional e importante nas vidas de milhões de pessoas. Fazem-nas em negócios, em lazer, a solo, em família ou em grupos; com as motivações mais variadas; em todas as alturas do ano, e em vários segmentos, desde o turismo social ao ultra-luxo; e
  • aumento do número de destinos turísticos resultante do espetacular desenvolvimento dos meios de transporte, da explosão das tecnologias de informação e da multiplicação fenomenal da oferta de bens e de serviços turísticos. Efetivamente, do fundo dos oceanos, aos locais mais recônditos do planeta e até ao espaço, já não existem locais que não atraiam visitantes e turistas.
    Em resumo, atualmente, quase todas as pessoas são turistas e todos os locais são potenciais destinos turísticos.

Apesar da diversificação fenomenal de destinos turísticos, o forte crescimento da procura global e a elevada atratividade de alguns locais específicos, em determinadas alturas do ano e áreas geográficas, parece tê-los tornado vítimas do seu próprio sucesso, nomeadamente, quando os impactes negativos do Turismo começam a superar os impactes positivos, ainda que de forma percecionada, pelas populações. Em síntese, o designado “excesso de turismo” ou sobreturismo (Overtourism em inglês), descreve situações em que o volume de visitantes e/ou turistas ultrapassa a capacidade de um destino lidar com o seu impacte, resultando em consequências negativas para a qualidade de vida dos residentes, a experiência turística e o ambiente.

Porém, o sobreturismo não se limita ao número de visitantes e/ou turistas, englobando também a perceção de múltiplos impactes negativos, incluindo:

  • Degradação do ambiente natural e construído;
  • Congestionamento e pressão sobre as infraestruturas;
  • Aumento do custo de vida para residentes, incluindo habitação;
  • Erosão da cultura local e autenticidade da experiência turística;
  • Tensão entre residentes e turistas; e
  • Diminuição da qualidade da experiência turística.

Entre os fatores que contribuem para o sobreturismo incluem-se os seguintes:

  • Marketing de destino agressivo: Campanhas de marketing agressivas que promovem destinos turísticos populares contribuem para o aumento do número de turistas;
  • Crescimento da indústria de cruzeiros: Os navios de cruzeiro, ao largarem um grande número de turistas em portos por curtos períodos de tempo, contribuem significativamente para a sobrecarga dos destinos turísticos; e
  • Aumento da popularidade de plataformas de aluguer de curta duração: Estas plataformas facilitaram o aumento da oferta de alojamento turístico, muitas vezes à custa da oferta de habitação para residentes.

As consequências negativas do sobreturismo nos destinos turísticos incluem aspetos de natureza bastante diversa, que ocorrem quando os fluxos turísticos excedem a designada capacidade de carga do destino:

  • Ambiental: Danos em ecossistemas frágeis, poluição, produção excessiva de lixo;
  • Económica: Aumento do custo de vida, especulação imobiliária, gentrificação, substituição do comércio tradicional por lojas de souvenirs; etc.; e
  • Social: Congestionamento, conflitos entre residentes e turistas, perda de identidade cultural, sensação de insegurança.

Como referido, o sobreturismo gera muito frequentemente um debate aceso entre diferentes stakeholders, com perspetivas bastante divergentes entre si:

  • Residentes: Muitos sentem que o turismo excessivo degrada a sua qualidade de vida, aumenta o seu custo de vida e afeta a sua identidade cultural;
  • Especialistas: Alertam para os impactes socioambientais e económicos negativos, defendendo a necessidade de fazer planeamento estratégico e gestão sustentável;
  • Autoridades (Governo, Câmaras Municipais, DMO’s, etc.): Enfrentam o desafio de equilibrar os benefícios económicos do turismo com a necessidade de proteger os residentes e o ambiente, implementando medidas que nem sempre são populares e/ou eficazes na mitigação dos impactes negativos; e
  • Empresas turísticas: Argumentam que o turismo é vital para a economia, defendendo a implementação de medidas de gestão mais responsáveis e uma maior colaboração com as comunidades locais.

A citação acima ilustra bem a complexidade do sobreturismo: os destinos turísticos podem atrair fluxos turísticos que não desejam, sendo crucial definir estratégias claras e implementar medidas eficazes para moldar os fluxos turísticos que pretendem receber.

Sendo o sobreturismo um desafio complexo, que exige abordagem multifacetada, importa portanto:

  • Compreender o fenómeno: Definir o sobreturismo e os seus impactes específicos em cada contexto em concreto;
  • Monitorizar as tendências: Analisar de forma exaustiva dados sobre fluxos turísticos, impactes socioambientais e económicos, e a perceção da população local;
  • Implementar medidas eficazes: Adotar estratégias que equilibrem os benefícios económicos do turismo com a sustentabilidade ambiental e a qualidade de vida dos residentes; e
  • Last but not the least, promover a colaboração: Envolver de forma inteligente e determinada todos os stakeholders na procura das melhores soluções, incluindo representantes dos residentes, as autoridades, os especialistas e a vasta constelação de empresas turísticas.

O sobreturismo é, muito claramente, um desafio premente que exige soluções criativas e colaborativas. Governos, DMO’s e turistas devem trabalhar em conjunto e de forma coordenada para garantir um turismo sustentável e que beneficie todos os stakeholders. É essencial um bom planeamento estratégico, a monitorização constante dos fluxos turísticos e a adoção atempada de medidas de gestão para procurar alcançar um melhor equilíbrio entre os benefícios económicos e o imperativo da preservação dos recursos naturais e culturais.

Em próximo artigo abordarei a importância da determinação da capacidade de carga de um destino turístico, a necessidade da monitorização contínua dos impactes do turismo e a exigência de ajustar permanentemente as políticas de gestão para garantir a sustentabilidade do destino a longo prazo, sem esquecer as medidas a adotar para mitigar os efeitos negativos do sobreturismo, incluindo alguns exemplos de boas práticas internacionais.

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