2050: O Fim das Férias como as Conhecemos

2050: O Fim das Férias como as Conhecemos

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Globalmente, os números oficiais divulgados recentemente pelo Barómetro do Turismo da ONU (janeiro de 2026) confirmam que 2025 foi um ano decisivo para o setor, registando uma estimativa de 1,52 mil milhões de chegadas internacionais. Este aumento de 4,0% em relação a 2024, significa mais do que apenas um regresso aos níveis de procura anteriores à pandemia COVID-19; marca o início de uma nova era de crescimento estável, na qual a procura de viagens se mantém resiliente, apesar dos persistentes desafios da inflação, da incerteza económica e das mudanças geopolíticas.

Este mesmo Barómetro refere ter vindo a observar, de forma consistente, uma divergência crucial: a receita está a crescer globalmente mais rápido que o número de chegadas, denotando uma mudança fundamental no que o viajante está a comprar. Efetivamente, em 2026, o setor terá passado da fase de “criação de memórias” para a de “criação de propósito”. O turista moderno já não se satisfaz apenas com as ofertas tradicionais de quarto e pequeno-almoço, exigindo antes experiências e verdadeiras transformações, interiores ou no destino.

Em Portugal, de acordo com dados do Banco de Portugal, as receitas turísticas de 2025 atingiram um novo recorde nacional, ao excederem os 29,4 mil milhões de euros (aumento de 5,0% face ao ano anterior), a curta distância da meta de 30 mil milhões de euros traçada pelo Turismo de Portugal. Também as dormidas atingiram novo recorde absoluto, com 31 milhões de turistas internacionais.

Sejamos claros: a soberania económica de Portugal no horizonte 2050 depende da nossa capacidade de transitar de uma visão quantitativa do turismo para uma “economia ativa” de alto valor. O setor deixou de ser uma atividade de lazer periférica para se tornar o sistema circulatório da estabilidade social do país. Portugal vive hoje um paradoxo crítico: um sucesso financeiro sem precedentes, com receitas e dormidas recorde, mas confrontado com uma ansiedade social crescente motivada pela perceção de massificação.

Contudo, uma análise mais profunda e estratégica revela que o peso real do turismo no PIB português é drasticamente subestimado. Enquanto as métricas diretas apontam para cerca de 14%, o impacte real induzido situar-se-á algures entre 16% e 18% e cerca de 6,0% da população empregada. Ao considerarmos a sua interligação vital com o comércio e serviços – vasos comunicantes que geram mais de 60% da riqueza bruta nacional – o turismo afirma-se não como acessório, mas como pilar central da nossa economia.

A integração do setor do turismo nas prioridades da governação económica, transforma-o num pilar de soberania. Ignorar este peso é comprometer a base produtiva nacional. Como disse recentemente o Dr. Pedro Machado, Secretário de Estado do Turismo: “O sucesso do Turismo exige agora uma nova perspetiva sobre a gestão de fluxos para evitar que a vitória económica se converta numa derrota social”.

Numa altura em que o Turismo de Portugal se prepara para submeter a consulta pública a Estratégia Turismo 2035 (ET35), o novo referencial estratégico para o turismo em Portugal – que permitirá enfrentar os novos desafios que se colocam ao país, à Europa e ao Mundo – definindo linhas de ação para um turismo mais sustentável, inovador e resiliente, importa perspetivar algumas macrotendências no horizonte mais alargado de 2050:

Despertar de uma “nova era dourada”

Vivemos mergulhados num ruído mediático ensurdecedor, onde as narrativas de crises geopolíticas, inflação persistente e ansiedade climática parecem ditar o fim do otimismo. No entanto, a realidade é outra: abaixo destas ondas superficiais, o setor das viagens nunca foi tão robusto. Estamos no limiar de uma “nova era dourada”, onde o turismo sofre uma mudança fundamental: deixa de ser um luxo ocasional, um parêntesis no quotidiano, para se transfigurar numa necessidade biológica e num ativo central da identidade moderna. Em 2050, viajar não será apenas uma deslocação, mas o garante da estabilidade social e um motor de autorrealização que se desvinculou da volatilidade económica para se ancorar na própria essência do ser humano.

Viagem como direito de nascença: 6,7 Mil Milhões de Viajantes

A democratização do movimento é a grande constante deste século XXI. Até 2050, estima-se que 70% da população global – aproximadamente 6,7 mil milhões de pessoas – serão viajantes potenciais. Este fenómeno é alimentado pela designada “aceleração da riqueza”, um motor que, aliado ao recorde histórico de população ativa (entre 63% e 65% da população global), transformou a mobilidade num marcador de saúde mental. O gasto discricionário mudou de natureza: o “ter” rendeu-se ao “ser”. A viagem é agora um ativo biológico, um investimento na estabilidade emocional de uma sociedade que reconhece na exploração do mundo o antídoto para as pressões da era digital.

Inversão de prioridades: sentir primeiro, escolher depois

A tomada de decisão, outrora linear e previsível, implodiu. O modelo tradicional de escolher um destino para depois procurar “o que fazer” deu lugar a uma busca por estados de espírito. O viajante decide primeiro o que quer sentir e só depois o local onde essa experiência é possível.

Este ecossistema é alimentado por um ambiente fortemente digital, onde a visualização gera um desejo imediato de replicação. Uma nova hierarquia de gastos parece refletir esta mudança:

• prioridade à memória: os gastos em experiências cresceram 65% face à década passada, enquanto a posse de bens materiais estagnou;
• segmentação psicológica: O mercado divide-se agora entre os Social Adventurers (que buscam o ângulo perfeito para a validação social), os Independent Explorers (ávidos pelo off-the-beaten-path), os Relaxed Researchers, os Guided Tourists e os Serenity Seekers; e
• conectividade social: A experiência é o novo capital: para 83% dos turistas, a viagem começa e termina na validação da rede social.

A possibilidade de um momento de viagem transformador motiva as pessoas a reservar uma viagem. A procura pelo tipo certo de momento influencia agora a escolha dos destinos turísticos.“, McKinsey/Skift

Fim do monopólio das grandes capitais

O prestígio dos destinos tradicionais (Paris, Londres, Roma) está a ser erodido. O viajante moderno, agnóstico de marcas tradicionais, foge da “fricção das multidões” e procura o que se pode designar por “espaço para respirar”. Assiste-se ainda a uma mudança tectónica de eixo: a região da Ásia/Pacífico ultrapassou já a Europa como o maior mercado emissor do mundo. Contudo, a verdadeira espinha dorsal da indústria continua ainda a ser o turismo interno, que representa 90% de todas as viagens, servindo como a plataforma definitiva de lealdade e sustentabilidade.

Neste cenário, emerge a dita “taxa de complexidade”: o volume já não garante lucro. O sucesso hoje pertence a quem gere o yield (rendimento) e não apenas as entradas de viajantes.

Choque geracional: explosão da economia sénior

Pela primeira vez na história, múltiplas gerações viajam em simultâneo. A economia sénior é o novo gigante silencioso, contribuindo com 40% do PIB global. Assistimos a uma rutura no modelo de herança: em vez de transferirem património postumamente, os seniores estão a gastar a sua riqueza em vida. O resultado é um aumento brutal das viagens multigeracionais, rituais de conexão onde a logística de “esforço zero” proporcionada pela tecnologia permite que um avô de 70 anos e um bisneto de 10 partilhem a mesma viagem emocional com o mesmo nível de conforto.

Mito do sobreturismo: uma falha de gestão, não de pessoas

A narrativa da massificação como uma fatalidade numérica é um refúgio retórico para a inércia da governação. O sobreturismo não é um excesso de pessoas; é uma falência na gestão de fluxos. O caso de Portugal é pedagógico: a perceção de saturação no Algarve é real, mas estatisticamente concentrada, uma vez que 70% das dormidas ocorrem em apenas 3 dos 16 concelhos.

A solução reside no modelo dinamarquês de gestão da perceção e na distribuição sazonal. Nos principais destinos turísticos, onde a pressão é maior, o crescimento em valor fora da época alta é a única via para a sustentabilidade.

O que está em jogo é a gestão. Podemos quebrar alguns mitos urbanos que persistem, nomeadamente os da questão da massificação ou da concentração.“, Pedro Machado, Secretário de Estado do Turismo

IA: algoritmo com coração

A Inteligência Artificial não é o substituto do humano; é o seu libertador. Atualmente, o paradoxo é que 47% das reservas de experiências ainda ocorrem offline, revelando uma fronteira digital massiva. A IA tratará da logística invisível – o “esforço zero” no planeamento e a eliminação da barreira linguística – permitindo que os profissionais se foquem na teatralidade e na hospitalidade pura.

A IA será a força definidora que transformará a forma como operamos, competimos e entregamos valor aos hóspedes, permanecendo, no seu núcleo, um negócio de humanos a servir humanos.“, Raul Gonzalez, CEO EMEA do Barceló Hotel Group

Um futuro de Turismo Regenerativo

Até 2050, atingiremos os 3,5 mil milhões de viagens internacionais. No entanto, a métrica do sucesso já não é o volume, mas o valor. Evoluímos para o designado Turismo Regenerativo, um modelo que procura o equilíbrio entre o território, o residente e o visitante. O turismo deve devolver à comunidade mais do que consome, atuando como um regulador da felicidade coletiva.

Estamos preparados para deixar de ver o turista como um invasor e passar a vê-lo como um investidor direto na nossa felicidade?

Em 2050, o sucesso pertencerá a quem vender momentos de transformação, e não apenas quilómetros de deslocação.

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