Imobiliário: refúgio de bilionários

Quase todos nós já reflectimos sobre aquela pergunta que os órgãos de comunicação social gostam de fazer por alturas de jackpot do Euromilhões, e que é, por exemplo, “o que faríamos com 50 milhões de euros”. Em resposta, acredito que a maioria das pessoas soubessem apenas como aplicar uma pequena parte desse montante.
Agora pensemos naquelas poucas pessoas cuja disponibilidade financeira não é de milhões de Euros mas de Milhares de milhões – os bilionários. Qual será o pensamento delas em relação à quantidade enorme de dinheiro de que dispõem? Qual a forma como o aplicam? O que para elas é um investimento seguro? Têm algum ponto em comum?
Analisando algumas das maiores fortunas deste planeta, e colocando de lado o facto normal de todas elas terem carteiras de acções de algumas empresas, criadas ou não pelas próprias, o que se conclui é quase todos apostarem fortemente no mercado imobiliário. Que significado poderá ter esta aposta ?

Um bilionário é uma pessoa que poderia simplesmente não fazer nada, apenas ter o dinheiro no Banco e viver dos rendimentos, mas sabemos a pouca rentabilidade e risco que isso hoje acarreta. Depois, sabemos que têm acções das empresas que os próprios criaram. Bill Gates, acções da Microsoft, Mark Zuckerberg, acções da Facebook, Larry Page, acções da Google, e por aí adiante. Para além destas duas possibilidades, uma parte arriscará a possuir acções de outras empresas, o que configura algum risco, especialmente quando não se controla a gestão.

Perante estas hipóteses, e sabendo que a maioria dos bilionários tem uma personalidade cautelosa em relação ao dinheiro, descobrimos que o “porto seguro” dos seus investimentos está no sector imobiliário.
Ernesto Bertarelli, maior fortuna Suíça (cerca de 15.000 milhões de euros), tem parte desta investido em duas empresas dedicadas ao sector imobiliário em Londres (Crosstree) e na Suíça (Roxbury).
Amâncio Ortega, segunda fortuna mundial (cerca de 70.000 milhões de euros), é detentor de alguns dos edifícios mais emblemáticos de Espanha.
A família Walton (fortuna conjunta dos filhos do fundador de cerca de 140.000 milhões de euros), fundadora da maior cadeia de retalho do mundo – a Wal-Mart – é proprietária da quase totalidade dos espaços onde se encontram as suas lojas.
Uma das maiores fortunas de Inglaterra, Gerald Grosvenor (cerca de 14.000 milhões de euros), assenta a sua fortuna na posse de vasto património imobiliário em Londres, nas zonas de Belgrave e Mayfair, na posse da família há quase 350 anos, e que são apenas as mais caras da capital inglesa.
A família Kamprad (cerca de 40.000 milhões de euros), proprietária do IKEA, também é proprietária da quase totalidade do espaço físico onde se encontram as lojas do Grupo.
Perante esta estratégia, como que poderá o “comum dos mortais” beneficiar deste sector tão apreciado pelos bilionários? É uma hipótese real de investimento perante os valores necessários para ser proprietário de um imóvel ?
A maioria de nós conhece alguém que tendo herdado bens imobiliários, usufrui de rendimentos daí oriundos, e que representam um certo conforto financeiro. No entanto, não tendo esta sorte, poderão existir várias soluções para entrar neste sector.
Embora não sendo um investimento do qual se espere um rendimento, começo por referir a compra da habitação própria permanente, que felizmente no meu entender, tem sido a escolha da maioria das pessoas nos últimos 20 anos em Portugal. Digo felizmente, porque mesmo recorrendo ao crédito bancário, e liquidando este crédito na totalidade ou mesmo apenas parcialmente, este proprietário está a construir uma verdadeira poupança para o futuro, não só seu, mas também dos seus descendentes. Acredito que daqui a 30 ou 40 anos, as famílias que fizeram esta aposta e conseguiram manter o imóvel na sua posse, irão ficar bastante satisfeitas com a sua decisão ou dos seus ascendentes. Esta é uma das razões, entre outras, porque na maioria das vezes defendo a compra em detrimento do arrendamento. Não tendo a liquidez do mercado de acções, se o imóvel for comprado pelo preço correcto, irá certamente a longo prazo ser um valor seguro para o proprietário.
Outra das hipóteses é a aquisição de um imóvel para colocar no mercado de arrendamento, nas suas várias vertentes, longo prazo, estudantes, alojamento local. Cada uma destas hipóteses acarreta riscos e tem benefícios específicos, cabendo ao investidor escolher a que melhor se adequa ao seu perfil de risco. Neste caso, obtém-se um rendimento desde logo (assim que seja arrendado), que devidamente bem gerido, se pode prolongar por muitos anos.
Outra solução será comprar Participações em Fundos de Investimento Imobiliário. Embora de análise mais complexa, e algum risco, permite entrar indirectamente no sector e beneficiar do mesmo, aplicando valores financeiros mais baixos. Diria que qualquer pessoa pode adquirir nem que seja uma Unidade de Participação num destes Fundos, e assim ser co-proprietária de um ou vários imóveis. Estes Fundos, regulados, oferecem alguma segurança de investimento, e se analisarmos as performances dos mesmos, verificamos que comparativamente com o mercado de acções, revelam maior estabilidade em relação ao seu valor num determinado momento.
O sector imobiliário é assim uma escolha acertada para quem se preocupa com o seu futuro e os seus investimentos, dependendo em muito do valor pelo qual é feita a compra do imóvel, do nível de recurso ao crédito, e da localização. Mesmo neste último caso, o que hoje é uma zona menos atractiva, poderá no futuro vir a revelar-se um bom investimento, se por sorte a zona em questão se tornar apelativa, e isto felizmente não é raro acontecer, como é o exemplo, neste momento, do centro histórico de Lisboa.
Por Carlos Leite de Sousa
Fundador Streetics

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