A invasão!

Fernando Vasco Costa
Strategic Consultancy
Jones Lang LaSalle



Quem passeia nos centros de Lisboa e Porto, não precisa de ver os dados do turismo para constatar que o número de turistas que nos visitam está a aumentar de forma exponencial nos últimos tempos.

Lisboa, Porto e Portugal estão, de facto, na moda, com inúmeros prémios e destaques das mais diversas proveniências, reforçando a imagem deixada nos visitantes (85% dos turistas  afirmam que a viagem superou as expectativas num inquérito feito em Lisboa), o que potencia ainda mais o crescimento do turismo nos próximos anos.

São dados muito animadores para o nosso país, com um impacto evidente em toda a economia. O impacto mais positivo é sem dúvida na reabilitação dos centros históricos, outrora deixados ao abandono, com melhorias substanciais na qualidade urbana destes territórios.


Por outro lado, há que destacar a criatividade e iniciativa dos nossos empreendedores, pois têm surgido conceitos inovadores em diversos sectores, desde o alojamento à restauração, mas também nos transportes turísticos, que vêm reforçar o carácter único e autêntico das nossas cidades, promovendo um turismo de qualidade.

Os nossos novos hotéis, restaurantes, apartamentos para estadias de curta duração e hostels são habitualmente distinguidos como do melhor que se faz no mundo, não só pela imprensa da especialidade mas também pelos próprios hóspedes, promovendo muito a qualidade do nosso destino.

No entanto, toda esta euforia desencadeia um série de questões que importa discutir e reflectir, de modo a que o crescimento futuro continue a ser sustentável e aceite por todos.

Um dos maiores riscos do crescimento exponencial do turismo em cidades pequenas como Lisboa e Porto (à escala global) é a falta de capacidade da estrutura urbana, para receber e acomodar um tão grande número de visitantes e permitir que estes possam conviver em harmonia com os habitantes locais.

Temos o exemplo recente de Barcelona, uma cidade de dimensão semelhante, com o qual devemos aprender a não seguir o mesmo modelo de excesso de liberalismo que tem vindo a torná-la num verdadeiro parque temático “Ramblas – Gaudi”.

Vi recentemente o documentário “Bye Bye Barcelona” onde se abordam estas questões, suas causas e consequências, que nos poderá servir de sério aviso.

Muito embora existam diferenças com o que se está a passar em Lisboa e Porto, não há dúvidas que as consequências poderão ser muito semelhantes, sendo que já se sentem alguns desses fenómenos como a falta de disponibilidade de apartamentos a valores comportáveis para residentes locais.

A importância que o Turismo representa para o nosso país e o elevado potencial para um continuado crescimento, faz com que deva ser realizado e implementado um Plano Estratégico para cada uma das cidades. Nestas deverão ser definidas, por exemplo, números máximos de unidades e camas turísticas por zona, bem como identificar novas zonas a desenvolver (ou reabilitar) com  potencial turístico, de modo a tentar dispersar melhor os turistas nas cidades e criar novas atracções em locais onde hoje não existem ou não são conhecidas, usando o excelente património já existente, mas também criando mecanismos de fomento e controlo de qualidade da oferta turística.

Estes planos não deverão servir para restringir o turismo mas antes para o potenciar de forma sustentável e equilibrada. A nossa previsão é que o Turismo continue a crescer de forma acelerada nos próximos anos e temos que criar condições para que os nossos visitantes continuem a ficar muito satisfeitos e surpreendidos com as suas experiências.

Sei que não somos muito dados a “planos estratégicos”, mas as nossas cidades são únicas e autênticas, com características que não se encontram facilmente em outros destinos. Por isso mesmo, temos de perceber bem o que queremos como modelo, ser rápidos e prepararmo-nos melhor para a “invasão” turística que iremos continuar a sentir nos próximos tempos, para que depois não seja demasiado tarde.



 

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