A torneira dos Bancos (ainda) pinga pouco

De há uns meses para cá, tem-se tornando costume ler e ouvir que a Banca Portuguesa está a “abrir a torneira do crédito”, numa alusão a um maior relaxamento desta relativamente à concessão de crédito habitação. Nisto, como em tantas outras coisas, normalmente fico na dúvida e, por isso, refugio-me sempre nos números em busca de alguma explicação.

O Banco de Portugal fechou recentemente os dados relativos a 2015. No que respeita ao crédito habitação, verificamos então que a Banca em Portugal concedeu um total de € 4.013 milhões, montante que ficou 73,5% acima do registado em 2014, sendo inclusive já mais do dobro registado do registado em 2012.

Perante tamanha subida, não é realmente de estranhar que pensemos que a Banca abriu, de facto, a torneira. Ou será?

Olhando para o histórico do nosso mercado, rapidamente concluímos que estamos longe, muito longe de outros tempos. Não que se pense que lá voltaremos, mas daí até se afirmar que a Banca abriu a torneira…

No pico do mercado, a Banca concedia qualquer coisa como 2 mil milhões de euros em crédito por mês. MÊS! Em 2015, concedeu 4 mil milhões. Num ano inteiro! Portanto, estamos ainda longe, muito longe.

Dizer-se que o crédito à habitação cresceu mais de 70% em 2015, sem contextualizar historicamente o nosso mercado, é no mínimo intelectualmente desonesto, perdoem-me a expressão. O ano passado registou, de facto, um forte acréscimo nos montantes concedidos para financiamento de habitação em Portugal, mas a queda tinha sido muito grande, pelo que a base de comparação é tão baixa que serve apenas para isso: mera comparação.

A história recente mostra-nos 3 períodos distintos:

  • Expansionista. Até 2007, ano em que se registou um máximo histórico no mercado com quase 20 mil milhões de euros emprestados para compra de casa;
  • Retraccionista. Entre 2008 e 2010, após o rebentar da crise do subprime, com a Banca a baixar os volumes de crédito concedido mas, mesmo assim, a emprestar sempre em montantes próximos dos 10 mil milhões por ano;
  • Congelamento. Desde 2011, ano da assinatura do MoU, momento em que a Banca definitivamente cortou no crédito, tendo-se atingido um mínimo histórico abaixo dos 2 mil milhões em 2012.

A realidade é que estamos ainda dentro deste último período, de congelamento do crédito. Nos últimos meses temos vivido um período extraordinário de condições ultra-favoráveis à concessão de crédito por parte da Banca. Ainda muito recentemente, o Banco Central Europeu reviu as suas taxas directora e de refinanciamento, melhorando ainda mais essas condições. Ou seja, não há desculpas para a Banca não emprestar dinheiro à economia, imobiliário incluído.

Veremos se em 2016 sairemos desse período de congelamento do crédito e se, na realidade, as torneiras abrem definitivamente.

Aqui fica o gráfico com os números desde 2004:

Bons negócios (imobiliários)!

Por Gonçalo Nascimento Rodrigues
Main Thinker, Out of the Box
Managing Director, OTBX

Artigos Relacionados

Leave a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked with *

So, what's new?

Etiquetas

acessibilidade habitação aguirre newman alavancagem alemanha alojamento local ana rita pereira angola arrendamento arrendamento acessível arrendamento com opção de compra augusto homem de mello aurare avaliação bancária avaliação de hoteis avaliações imobiliárias b. prime bani barómetro benefícios fiscais bernardo d'eça leal blockchain blogs bolha imobiliária bond yields branded residences brasil bruno lobo bruno silva built-to-rent. buy-to-let camara municipal de lisboa carlos gonçalves carlos leite de sousa casafari casas Case Shiller cbre china commercial real estate comprar casa comércio confidencial imobiliário construção consultoria consultoria hoteleira consultoria imobiliária contrato promessa core core-plus coronavirus covid19 coworking credit default swaps crédito habitação crédito imobiliário crédito mal-parado cushman wakefield dação em pagamento discounted cash-flow distressed assets dívida dívida pública entrevistas equity escritórios esg espanha estónia EUA euribor eurostat eventos facebook fernando vasco costa financiamento finanças imobiliárias fiscalidade FMI francisco espregueira francisco silva carvalho francisco virgolino frança fundbox fundos de investimento fundos de reabilitação urbana fundos imobiliários fundos pensões golden visa Gonçalo Nascimento Rodrigues grécia habitação habitação acessível hipoteca holanda hotelaria hotéis imi imobiliário imobiliário do estado imobiliário portugal imobiliário turístico imposto de selo impostos imt imóveis banca industrial inflação inprop fund inteligência artificial investimento investimento imobiliário ipd irc irlanda irs iva jorge catarino jorge próspero dos santos josé carlos marques da silva joão abelha joão fonseca joão madeira de andrade joão nunes knight frank lei arrendamento lisboa logística ltv luís francisco mais-valias marketing massimo forte mediação imobiliária millennials nar non-performing loans notícias nrau nuno ribeiro obama obrigações do tesouro oportunístico ordem dos avaliadores orey activos orey financial out of the box património patrícia barão pedro pereira nunes permuta portais de imobiliário porto Portugal preços casas price earnings price to income price to rent prime watch prime yield promoção imobiliária proptech prédios com rendas antigas reabilitação urbana real estate reit rendas residências 3ª idade residências estudantes retail parks reverse mortgage revista imobiliária ricardo da palma borges ricardo guimarães ricardo pereira rics risco Rui Alpalhão rui bexiga vale rui soares franco rácio de afordabilidade sale and leaseback sareb segunda habitação senior living sigi spread taxa de actualização taxa fixa taxa interna de rentabilidade taxas de juro taxa variável tecnologia turismo turismo residencial uk value-add vender casa wacc yield índices imobiliários

Out of the Box Social Media

Subscreva a nossa newsletter

    Recomendado

    Barómetro