Quando falamos da crise na habitação e na dificuldade do acesso a casas, seja para comprar ou arrendar, principalmente para os mais jovens, há uma questão que não podemos contornar: as alterações demográficas que Portugal tem vindo a atravessar e o que estas impactam no parque habitacional e no lado da procura e oferta.
Se há duas gerações atrás, os agregados familiares eram compostos por mais pessoas e havia também menos divórcios (nos últimos 10 anos esta taxa situa-se em mais 40%), hoje em dia a realidade é outra. Existem cada vez mais famílias monoparentais e famílias mais pequenas, que precisam logicamente de casas mais pequenas, ajustadas às suas necessidades. Em cada divórcio surge a procura por mais uma casa no mercado. Destaco ainda a diminuição da população portuguesa e o duplo envelhecimento, que obviamente terá um grande impacto no setor imobiliário e noutros setores.
As previsões dizem-nos que daqui a 14 anos, seremos menos de 10 milhões de habitantes em Portugal, e na última década, o que observámos, é que a população acima dos 65 anos aumentou 21%, e a população entre os 0 e os 14 anos, diminuiu 14%.
As tipologias das casas estão a ser transformadas e futuramente teremos de adaptar o nosso parque habitacional a esta nova realidade e garantir construção nova que ofereça as especificidades de acordo. As casas que existem no mercado são antigas e apenas 20% das casas existentes têm menos de 20 anos. Face a estes dados, é urgente adaptarmos a oferta que temos e pensarmos que as medidas que temos de tomar têm de ser agora, para darem resposta a estes problemas sociais, que nos chegarão, sem sombra de dúvida, daqui a 10 anos.
Outro tema a que nos leva à questão da demografia é o número de pessoas acima dos 65 anos que vivem sozinhas e em casas que dificultam a sua qualidade de vida. Por exemplo, idosos que vivem em prédios sem elevador, bloqueando a sua mobilidade e acessos e no fundo, aprisionado as suas vidas. Outro tema que tenho vindo a falar e que considero que deveria ser mais aprofundado: a solidão.
São 2,1 milhões de habitantes nessa faixa etária (mais de 65 anos) e que representarão 2,8 milhões de pessoas em Portugal nestas condições daqui a aproximadamente 10 anos. É urgente trazer oferta para o mercado com condições que respondam a estes números.
Por isso, sim, as alterações demográficas impactam e vão impactar cada vez mais o nosso parque habitacional. E aponto para a necessidade de o nosso país apostar no arrendamento e criar condições para o desenvolvimento de projetos de raiz para este tipo de ocupação. Esse é, na minha perspetiva, um dos maiores desafios que enfrentamos para o futuro face às mudanças demográficas, num mercado onde não existe oferta para arrendar. É um setor que tem sido “dominado” pelos (poucos) proprietários individuais e onde atualmente não há condições para escalar a oferta.







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