Nos últimos anos, temos assistido a uma mudança cada vez mais significativa no mercado imobiliário, com a necessidade de repensar alguns formatos tradicionais de produto que simplesmente deixaram de corresponder às expectativas da procura. Esta dinâmica não é exclusiva ao segmento residencial, sendo igualmente verificável nos escritórios, retalho ou logística. Em toda a linha, tem-se procurado seguir um caminho de maior flexibilização dos produtos imobiliários, permitindo integrar diferentes usos e modalidades, muitas vezes, debaixo do mesmo tecto.
Particularmente, no sector residencial, este reposicionamento tem sido impulsionado por crescentes mudanças, por vezes repentinas ou forçadas, de estilos de vida. É um facto que as pessoas estão mais “portáteis”, se assim pudermos aplicar a expressão, no sentido em que lhes é permitido trocar de vida com maior facilidade, como seja, ir morar para outro país, mudar de cidade e trabalhar de casa, ou simplesmente investir em períodos sabáticos e experimentar outras realidades, saindo da zona de conforto e procurar viver algo novo. É neste contexto que o Flex-Living tem vindo a ganhar cada vez mais expressão, permitindo que as pessoas encarem a habitação de forma mais light e menos permanente, oferecendo flexibilidade e conveniência, nos moldes que melhor necessitarem.
Do que se trata, então, o Flex-Living?
Flex-Living, ou habitação flexível, refere-se a um modelo de usufruto de habitação que se adapta às necessidades e preferências individuais dos moradores, oferecendo opções de curto e longo prazo, mobilidade e personalização. Em essência, é uma abordagem que procura dissociar-se do paradigma tradicional de casa, mais inflexível, proporcionando liberdade e escolha aos seus residentes quanto ao seu usufruto.
O Flex-Living tem-se evidenciado mais em mercados europeus e tem vindo a ganhar especial atenção entre jovens de 25 e 45 anos de idade, por norma bem sucedidos profissionalmente e com bom poder de compra e hábitos de vida associados a conforto e alguma sofisticação.
Tive oportunidade de assistir, há pouco tempo, a uma conferência onde esta temática foi abordada por uma perspectiva muito objectiva no que toca ao nível de serviço e comodidades oferecidas nas diferentes categorias de produto residencial. Aproximadamente, podem-se explicar pela imagem abaixo.

Por norma, podemos enquadrar no Flex-Living três principais dinâmicas:
- Coliving: Ou seja, basear a oferta na partilha de experiências e usufruto do mesmo espaço em comunidade, focando-se num target que procura exactamente essa mistura cultural, característico de uma faixa etária mais nova, como sejam estudantes ou jovens em início de carreira, mas sem que seja factor de exclusão. Obriga a considerar o espaço como um todo e a optimizar o uso de zonas comuns, sempre mais marcantes, face às zonas privativas.
- Smart Living: proporcionam mais espaço e maior independência, em especial para aqueles que procuram mais equilíbrio entre comodidade e flexibilidade, suportando a sua oferta numa experiência tecnológica. Surgem para dar respostas a uma solução de vida integrada, seguindo padrões de sustentabilidade, conectividade, lazer, trabalho e educação, explorando a ideia de algo agregador e que pode ser consumido na proporção exacta do interesse de cada um dos seus utilizadores.
- Corporate Living: também chamados de Serviced Apartments, focam-se numa oferta de elevada qualidade, conforto e espaço, dando resposta aos utilizadores que não abdicam da sua privacidade e luxo, aliados a um elevado nível de flexibilidade. Por norma, oferecem uma vasta gama de amenities e esse atractivo é o que mais os define na categoria de produto.
A melhor combinação destas dinâmicas resulta numa pluralidade de soluções, versáteis e camaleónicas, capazes de captar a atenção de públicos com distintas necessidades. É esta multiplicação e combinação de usos que torna o conceito tão interessante.
Exemplo de Amenities mais frequentes em cada uma das categorias:

Fonte: ATLAS Real Estate Analytics
Principais tendências do Flex-Living na Europa:
1. Arrendamento Flexível: Em vez de compromissos de longo prazo, os arrendatários procuram contratos de arrendamento mais curtos, que se adaptem às suas necessidades em constante mudança. Isso pode incluir contratos de curto prazo, arrendamento de unidades mobiladas e até mesmo modelos de “pay-per-use”, nos quais os residentes pagam apenas pelos serviços e espaços que utilizam.
2. Espaços de trabalho integrados: Com o crescimento do trabalho remoto e do empreendedorismo, os espaços de trabalho integrados tornaram-se uma característica comum nas habitações flexíveis. Apartamentos e edifícios residenciais integram cada vez mais nos seus projectos espaços de escritórios compartilhados, salas de reuniões e áreas de coworking, atendendo às necessidades dos profissionais que, em muitos casos, procuram um ambiente de trabalho conveniente e produtivo, sempre debaixo do mesmo tecto.
3. Oferta de serviços e comodidades: Os empreendimentos de Flex-Living frequentemente oferecem uma ampla gama de serviços e comodidades para melhorar a experiência dos moradores. Isso pode incluir limpeza regular, manutenção, ginásio, espaços de lazer, segurança 24 horas e até mesmo serviços de concierge. Ao integrar esses serviços, as residências flexíveis proporcionam conveniência e conforto aos seus ocupantes e, mais uma vez, disponibilizando-lhes uma ampla gama de serviço eliminando a necessidade de olhar para fora de portas.
4. Design modular e personalizável: A flexibilidade é também incorporada no próprio design dos espaços de Flex-Living. Muitos empreendimentos adoptam abordagens de design modular, permitindo aos residentes uma certa personalização e reconfiguração dos espaços conforme as diferentes necessidades. Alguns exemplos desta modulação podem passar pelo uso de paredes móveis, móveis multifuncionais e layouts flexíveis que se adaptam às diferentes atividades diárias dos moradores. O mesmo espaço pode então ser escritório durante o dia e casa de jantar de noite, por exemplo.
5. Sustentabilidade e tecnologia: Tal como o resto do sector residencial, também o Flex-Living na Europa se reveste cada vez mais de soluções e princípios de sustentabilidade e tecnologia. Muitos edifícios são projectados com eficiência energética em mente, incorporando tecnologias inteligentes para monitorizar e optimizar o consumo de energia. Por outro lado, a automação residencial, sistemas de segurança e controlo de temperatura e iluminação inteligentes, entre outros, estão a ganhar cada vez mais importância e a redefinir a oferta padrão em muitas residências flexíveis.
O Flex-Living na óptica do Investimento
Na óptica do investidor imobiliário, o Flex-Living pode ser também uma solução mais atractiva, no sentido em que permite uma melhor optimização e rentabilização do activo, pela capacidade de diversificação da renda em diferentes tipos de contrato e uma maior adaptabilidade aos fluxos de procura, usufruindo do tal efeito camaleónico.
O mesmo activo pode absorver uma estadia de longa duração ou um short-stay, melhor respondendo, desta forma, ao efeito sazonalidade. Há activos Flex que durante o ano lectivo acomodam estudantes e executivos, em contratos de média duração e no Verão assumem um papel de alojamento de curta duração, para turistas.
Esta são algumas das razões pelo qual o Flex-Living se tem vindo a tornar numa crescente tendência internacional e Portugal, sem excepção, como país hoteleiro e turístico por excelência, deverá igualmente sentir este segmento crescer nos próximos anos.
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António Baptista Coelho
14 de Abril, 2025, 11:53Excelente o seu artigo.
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