Estamos num momento em que necessitamos de inovação financeira. O financiamento é caro e escasso e o mercado não pode (não deve) parar. Há investimentos que são legítimos e que têm mercado, outros com certeza não terão. No sector da habitação, as pessoas continuarão a necessitar de ter imóveis (comprando ou arrendando), seja para investimento, seja para uso próprio.
Neste artigo dou 2 exemplos de inovação financeira, no sentido de colmatar a escassez de financiamento no mercado. Um bom e um mau exemplo. Comecemos pelo bom.
Há bem pouco tempo foi lançado um novo Fundo no Reino Unido. Tem um capital de £ 500 M e o objectivo de investir em imóveis de habitação em Londres e no South East. É dirigido a 2 segmentos: investidores institucionais e futuros proprietários.
O futuro proprietário pode adquirir 25% a 50% do valor da habitação recorrendo a uma hipoteca convencional, sendo que o Fundo comprará a parte restante. O mesmo proprietário pagará depois uma renda mensal equivalente à renda de mercado do imóvel, incidindo apenas sobre a parte da qual não é proprietário. Pode também comprar a parte restante ao Fundo a qualquer momento.
O Fundo, por seu turno, potencia o acesso ao investimento habitacional a uma classe de investidores que pretende ter rendimentos estáveis. O objectivo do Fundo é de atribuir uma yield anual de 6%, estimando uma TIR de 15%, a cinco anos.
Agora o mau exemplo. Li também há dias que a APEMIP lançou um novo produto de crédito à habitação exclusivo para os clientes das mediadoras associadas. Contactei a APEMIP que teve a gentileza de me enviar uma brochura informativa do produto e responder a algumas dúvidas que tinha. Só tenho a agradecer a disponibilidade demonstrada.
Segundo eles, este produto traz duas vantagens: a primeira, é que concede empréstimos até 100% de LTV; a segunda, é que nos primeiros 3 anos, a prestação é fixa, sendo que caso as taxas de juro venham a subir ou a descer, o diferencial será acrescido ou amortizado ao valor em dívida, respectivamente. Assim, os clientes ficam protegidos das oscilações nos indexantes. Daquilo que o Presidente da APEMIP me esclareceu, «os bancos projectam, neste particular do crédito à habitação, todos os cenários possíveis, também na perspectiva dos mutuários, até para minimamente garantirem que não haverá surpresas a médio prazo, nomeadamente em sede de crédito mal parado». Significa isto que, na perspectiva da APEMIP, este mecanismo de fixação da prestação protege o mutuário e o próprio financiador.
Vejam bem a diferença entre estes dois produtos: o primeiro está orientado para LTV’s baixos e aposta em rendibilidades estáveis, o segundo diferencia-se por ter LTV’s elevados e estrutura-se com base na volatilidade dos indexantes.
Pergunto-me: será que não aprendemos nada com esta crise?
As taxas de juro Euribor estão em mínimos históricos. Não se prevê – eu pelo menos não o antecipo – que venham a descer mais. Os preços de habitação têm descido (mais no estrangeiro que em Portugal) e não vejo ninguém a antecipar uma subida sustentada no curto e no médio prazo.
Nesta conjuntura, de expectável subida das taxas de juro e, no limite, de manutenção dos preços de habitação, a APEMIP lança um produto de financiamento com um LTV de 100% e com a capitalização dos montantes não pagos ao banco por força da subida do indexante.
Significa isto que, daqui a 3 anos, quando os mercados estiverem mais estáveis – pelo menos assim o esperamos – e as taxas de juro tenham voltado a níveis considerados normais, o adquirente deste produto estará a dever mais do que no início do contrato e pagará de prestação, bastante mais do que o inicialmente, pelo efeito conjunto da subida da taxa, da subida do valor em dívida e da redução do prazo remanescente de amortização.
No mínimo, um produto deste tipo parece-me imprudente. Questionado sobre isto, Luís Lima escreveu-me que «(…) em matéria de crédito à habitação passamos do 80 ao 8… Neste contexto, direi que o acréscimo de risco agora assumido é mais do que necessário, não sendo, a meu ver, um risco excessivo dada a estabilidade dos preços dos bens imóveis em Portugal, que registam uma valorização pequena mas constante, em regra ligeiramente superior ao valor da inflação».
Ao lançar este produto, a perspectiva da APEMIP é que o mercado financiador – leia-se, os bancos – têm de assumir mais risco e acreditar que o mercado imobiliário manter-se-á estável. Essa assumpção do risco é «mais que necessária».
Para mim, o risco deve estar do lado de quem compra, de quem investe, de quem promove. Os bancos, no papel de financiadores, não têm de partilhar o risco do negócio. Emprestam dinheiro e cobram um spread, são remunerados pela sua função de emprestar, não pela função de correr risco de negócio. Para isso, comprariam também habitação – tal como os mutuários o fazem – ou tornar-se-iam parceiros ou accionistas dos Promotores ou dos Investidores Imobiliários.
Em Portugal olha-se para trás, culpam-se os outros e exigem-se soluções. Ao invés, no Reino Unido por exemplo, procuram-se alternativas. No caso exposto, aposta-se que daqui a 5 anos, quando o mercado estiver mais estável, as pessoas terão mais e melhores condições de adquirir habitação, logo com maior probabilidade a comprarão ao Fundo, ficando o investidor com uma rentabilidade bastante interessante. Por cá, como hoje ninguém compra – o risco é elevado, para ambos os lados – “força-se” o mercado a financiar para que alguém compre. Ou será para alguém conseguir vender?
Bons negócios (imobiliários)!






10 Comentários
Anónimo
12 de Novembro, 2009, 9:25Há muito tempo não lia algo tão correcto e assertivo. Parabéns pelo artigo Gonçalo Nascimento Rodrigues. Infelizmente não é vulgar alguém com ideias tão claras e honestas. Infelizmente continua-se a tentar "tapar o sol com a peneira" e o novo produto de crédito habitação lançado pela APEMIP só isso demonstra.
REPLYParabéns pelo artigo.
Gonçalo Nascimento Rodrigues
12 de Novembro, 2009, 9:26Obrigado pelo comentários.
Aproveito para relembrar todos de assinarem os comentários para que possamos interagir melhor.
REPLYAnónimo
12 de Novembro, 2009, 11:30Uma vez mais outro excelente artigo.
REPLYOs mediadores querem (legitimamente sublinhe-se) é que existam transacções e estão pouco preocupados se o preço das casas no futuro desce ou sobe.
Penso que tão importante como pagar o justo valor por um imóvel é ter plena consciência das implicações decorrentes dos contratos e perceber bem o risco associado a determinados produtos que vão aqui e ali surgindo no mercado.
A despreocupação com que se continuam a abordam estas questões reflecte bem a realidade do pais…
Gonçalo Nascimento Rodrigues
12 de Novembro, 2009, 11:34Que os mediadores queiram que existam transacções, isso é natural, é a vida deles. Não podem nem devem é forçá-las, independentemente do preço, do financiamento ou dos riscos para o comprador.
Devem ser originais na forma de comercialização e procurar com outras entidades, formas originais de financiamento.
Esta não será uma delas, a meu ver…
REPLYLuís Oliveira
13 de Novembro, 2009, 12:22Caro GNR,
Apreciei (mais uma vez) a preciosa contribuição para a discussão deste enviezamento de mercado.
Expectando-se uma subida das taxas de juro, a prazo relativamente curto, não é de estranhar que se pretenda vender rapidamente enquanto a maré está baixa. A técnica (já desgastada) está em manter o preço e (aparentemente) reduzir o respectivo encargo para o tomador do risco. Ganham o (mau) imobiliário e os bancos mas perde(-se) o mercado.
Nesta linha, gostava de desmontar a armadilha do (inadequado) indexante. É um tema interessante embora de carácter quase estritamente financeiro.
Reparo: aquilo dos "100% do LTV" é destinado só para ao reino do 'jargonês'. Os pobres mortais não decifram.
Um grande abraço e continuação de boas crónicas e bons negócios (financeiros e imobiliários, já agora).
Luís Oliveira
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