Taxa de actualização: pressuposto ou consequência?

Taxa de actualização: pressuposto ou consequência?

Escrever sobre taxas de atualização é recorrente, eu não fujo à regra e este blogue também não.

É um tema sempre presente no âmbito da avaliação de imóveis, nomeadamente quando os imóveis são avaliados com o recurso a técnicas de fluxos de caixa descontados.

A taxa de atualização costuma ser um pressuposto da avaliação, a par dos custos de construção, diretos ou indiretos, dos valores de venda ou ainda do prazo de realização de todo o processo de desenvolvimento imobiliário.

A sua obtenção é sempre uma dificuldade porque somos obrigados a justificá-la (é uma exigência, por exemplo, da Lei 153/2015, de 14 de setembro) e somos tentados a viajar entre o CAPM (Capital Asset Pricing Model) e a wacc (weighted average cost of capital), esquecendo-nos que, em primeira instância, é o mercado que dita a taxa de atualização.

Eu tive a oportunidade de conversar sobre este assunto com Amaro Laia, Diretor e docente da Pós-Graduação em Gestão e Avaliação Imobiliária (PGAI), do ISEG, que muito assertivamente me explicava: “Para mais uma aproximação alternativa, o CAPM pode ser utilizado, mas sem esquecer que o beta só se consegue por aproximação por via de carteiras/índices para o segmento idêntico ao que estamos a avaliar. Ou se utiliza os betas e os outros parâmetros do CAPM, publicados por Damodaran.”

Estando o CAPM incluído no cálculo da wacc, o problema subsiste. Existe uma outra técnica, denominada “build-up”, mas não é consensual tal a sua subjetividade.

De certa forma, ficamos reféns de um conceito que provoca uma reação muito elástica no valor residual, a qualquer alteração que seja feita.

O desafio que quero aqui deixar é deixarmo-nos de nos preocupar tanto com a taxa de atualização e focar a nossa atenção noutros parâmetros que possamos dominar melhor. Ela estará presente, com certeza, no nosso fluxo de caixa, mas passará a ser uma consequência e não um pressuposto.

Quando se elabora um fluxo de caixa descontado, o nosso trabalho não termina na obtenção do valor residual. É preciso fazer todo um trabalho de validação do resultado obtido.

A validação deverá ocorrer a dois níveis.

O primeiro passo é verificar se a estrutura de custos obtida é coerente. Recordamos a este respeito um artigo do nosso colega Francisco Espregueira, neste blogue, intitulado “A Importância da Estrutura de Custos”, escrito em 2014. O autor afirma “A realização de uma boa Estrutura de Custos, bem equilibrada, é de vital importância. Para tal e com destaque basilar, deve-se, como sempre, realizar uma aprofundada e cuidada prospeção de mercado. Quando se diz “uma prospeção” deve entender-se como várias.”

Uma segunda validação a realizar é assegurarmos um peso correto dos custos no valor total de venda, no fundo o retorno do investimento. Deveremos dividir a soma de todos os custos, incluindo o custo do terreno pelo total das vendas, depois da promoção estar concluída. Este rácio poderá ser maior ou menor consoante a duração do projeto.
Aquilo que proponho é que estendamos o nosso fluxo de caixa descontado para lá do próprio fluxo de caixa descontado, construindo a estrutura de custos e o cálculo do retorno do investimento.

Se nós perguntarmos a qualquer promotor imobiliário a que taxa atualiza os seus fluxos de caixa, ou se utiliza o CAPM ou a wacc, ele não saberá responder, mas saberá dizer de certeza absoluta qual o retorno do investimento que exige.

Fixando o retorno do investimento, e recorrendo ao “Atingir objetivo” que existe em qualquer ferramenta, conseguimos fechar a nossa estimativa.

E lá aparecerá, no final, a nossa taxa de atualização, obtida, de certeza absoluta, através do mercado! Será uma consequência e não um pressuposto.

Finalmente, pensando alto, não conseguiremos por esta via estabelecer a diferença entre os CAPM de Damodaran e os CAPM de Portugal?

Artigos Relacionados

Leave a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked with *

So, what's new?

Etiquetas

acessibilidade habitação aguirre newman alavancagem alemanha alojamento local ana rita pereira angola antónio josé duarte arrendamento arrendamento acessível arrendamento com opção de compra augusto homem de mello aurare avaliação bancária avaliação de hoteis avaliações imobiliárias b. prime balcão nacional de arrendamento barómetro benefícios fiscais bernardo d'eça leal blockchain blogs bolha imobiliária bond yields branded residences brasil bruno lobo bruno silva built-to-rent. buy-to-let camara municipal de lisboa carlos gonçalves carlos leite de sousa casafari casas Case Shiller cbre century 21 china commercial real estate comprar casa comércio confidencial imobiliário construção consultoria consultoria hoteleira consultoria imobiliária contrato promessa core coronavirus covid19 coworking credit default swaps crédito habitação crédito imobiliário crédito mal-parado cushman wakefield dação em pagamento discounted cash-flow distressed assets double dip dívida dívida pública entrevistas equity escritórios esg espanha estónia EUA euribor eurostat eventos facebook fernando vasco costa fiiah financiamento finanças imobiliárias fiscalidade FMI francisco espregueira francisco silva carvalho francisco virgolino frança fundbox fundos de investimento fundos de reabilitação urbana fundos imobiliários fundos pensões golden visa Gonçalo Nascimento Rodrigues habitação habitação acessível hipoteca holanda hotelaria hotéis imi imobiliário imobiliário do estado imobiliário portugal imobiliário turístico imposto de selo impostos imt imóveis banca industrial inflação inprop fund inteligência artificial investimento investimento imobiliário ipd irc irlanda irs iva jorge catarino jorge próspero dos santos josé carlos marques da silva joão abelha joão fonseca joão madeira de andrade joão nunes knight frank lei arrendamento lisboa logística ltv luís francisco marketing massimo forte mediação imobiliária NAMA non-performing loans notícias nrau nuno ribeiro obama obrigações do tesouro oportunístico ordem dos avaliadores orey activos orey financial out of the box património patrícia barão pedro pereira nunes pib portais de imobiliário porto Portugal preços casas price earnings price to income price to rent prime watch prime yield promoção imobiliária propriedade rustica proptech prédios com rendas antigas reabilitação urbana real estate reit remax rendas residências 3ª idade residências estudantes retail parks reverse mortgage revista imobiliária ricardo da palma borges ricardo guimarães ricardo pereira rics risco rui bexiga vale rui soares franco rácio de afordabilidade sale and leaseback segunda habitação senior living sigi spread taxa de actualização taxa fixa taxa interna de rentabilidade taxas de juro taxa variável tecnologia turismo uk value-add vender casa vpt wacc yield índices imobiliários

Out of the Box Social Media

Subscreva a nossa newsletter

    Recomendado

    Barómetro