Muito se tem falado ultimamente sobre as taxas de juro. Vão subir? Quando? Com o aumento da inflação, parece (quase) inevitável que o Banco Central Europeu reveja em alta as taxas de juro euribor.
Como sabemos, as taxas euribor servem de referência para o nosso mercado, nomeadamente no crédito habitação, dado que a maioria dos créditos concedidos em Portugal para a compra de casa são indexados a esta taxa.
O indexante usado para cálculo das taxas de juro no crédito habitação encontra-se actualmente em níveis historicamente baixos, inclusive em valores negativos. Longe vão os tempos em que tínhamos taxas euribor nos 5%.
Segundo dados recolhidos do site do European Money Markets Institute, as taxas euribor a 12 meses (as que são actualmente mais utilizadas no crédito habitação em Portugal) apresentaram um valor médio em 2021 de -0,491%, o valor médio anual mais baixo de sempre.

Fonte: European Money Markets Institute
É, assim, de forma natural e compreensível que as taxas de juro praticadas nos empréstimos para compra de casa em Portugal estejam igualmente em valores mínimos históricos.
Analisando os dados do INE, a taxa de juro para novos contratos de crédito habitação fixou-se nos 0,682% em Dezembro de 2021, tendo já caído mais de 30 pontos base desde Agosto de 2020.

Fonte: INE
Qual o efeito da descida das taxas de juro?
É igualmente fácil depreender que uma descida das taxas de juro produz um efeito positivo no segmento residencial em Portugal. O nosso mercado tipicamente alavanca-se para a compra de habitação própria e permanente e uma descida na taxa de juro provoca naturalmente um efeito positivo nas famílias portuguesas, por duas vias:
- Liberta mais rendimento, para aqueles que já têm crédito contraído, dado que a prestação bancária baixa;
- Provoca um aumento do poder de compra na aquisição de habitação, para aqueles que o pretendem fazer com recurso a crédito.
Alguns papers e documentos de research apontam para um efeito de subida no preço de venda das casas entre 0,5% e 1,5% por cada corte de 50 pontos base nas taxas de juro.
Por seu turno, caso as taxas de juro subam, o efeito é inverso. Um crédito mais caro provoca um maior stress financeiro nos agregados familiares, ao mesmo tempo que leva a uma descida do poder aquisitivo de uma casa.
Então, mas afinal quando é que as taxas de juro vão subir?
É compreensível que perante o cenário actual se coloque a questão se as taxas de juro vão subir. E se sim, quando?
A Reserva Federal Norte-Americana (FED) já apontou o caminho. Março é o momento (para já) indicado para a primeira revisão em alta das taxas de juro. E outros se seguirão, num total de 3 ou 4 revisões ao longo de 2022.
A inflação, que há apenas algumas semanas era vista como transitória e passageira, afinal parece ter chegado para ficar. E por isso, importa rever política monetária, com reflexo mais imediato numa revisão em alta das taxas de juro.
Parece, pois, inevitável que o Banco Central Europeu (BCE) siga o caminho já apontado pela FED e reveja também a sua política monetária por forma a controlar ímpetos inflacionistas.
A Chatham Financial disponibiliza um gráfico muito interessante, comparando as taxas forward (futuras) das Euribor com o caminho que, de facto, elas acabaram por seguir. E a história mostra que a maior parte das vezes, o mercado não tem razão sobre as suas expectativas futuras.

Fonte: Chatham Financial
Olhando, então, para o gráfico acima, percebemos perfeitamente que as curvas forward das taxas euribor ficaram sempre bem acima dos valores que posteriormente vieram a ser verificados. Raro foi o momento em que o contrário se verificou (2008, 2011, 2020).
Mas é também interessante verificar que actualmente as estimativas sobre o comportamento futuro das taxas euribor estão bem acima das previsões anteriores. O mercado, de facto, antecipa já futuros aumentos (e em maior escala daquilo que previa ainda há bem pouco tempo) da euribor para 2023 e 2024.
O que poderá impedir um aumento dos juros?
Algumas vozes se levantam, procurando contrair estas expectativas do mercado. Na minha opinião, com uma certa razão. De facto, existem alguns aspectos que poderão “impedir” o BCE de rever em alta os indexantes, ou no limite, de os subir em demasia.
A economia europeia encontra-se bastante endividada, sobretudo as economias do sul da Europa. Portugal incluído. Desde o próprio Estado, passando pelas empresas, pelos bancos, até aos particulares, o endividamento é elevado. Numa economia como a nossa, com empresas pouco capitalizadas e particulares com rendimentos baixos, um aumento dos juros com certeza provocaria um efeito bastante nocivo na nossa economia;
Bons negócios (imobiliários)!







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