Dores de crescimento

Para aqueles que, como eu, são Pais, naturalmente saberão o que são “dores de crescimento”. Algumas crianças, no seu processo de crescimento físico, sentem dores, por vezes fortes. São os ossos a crescer, dizem os médicos, daí o nome “dores de crescimento”.
Olhando para a nossa economia, com especial atenção, claro está, para os mercados imobiliário, turístico e hoteleiro, fico com a nítida sensação que estamos a atravessar um período de crescimento. Esse crescimento tem sido bastante acentuado nos últimos tempos, depois de uma forte compressão da actividade entre 2010 e 2013, o que provoca uma natural… dor de crescimento!
Vamos por partes:
  • Na habitação, a política levada a cabo relativamente aos Golden Visa permitiu um crescimento exponencial das vendas, com natural reflexo nos preços. Dados mais recentes apontam para uma subida de mais de 8% nos preços em Lisboa, só em 2015;
  • No turismo, o ano de 2014 foi um ano de recordes, em termos de receitas geradas e nº de dormidas;
  • No investimento comercial, dados publicados pela C&W apontam para um total superior a € 800 M investidos entre Janeiro e Maio de 2015, valor nunca antes registado em igual período em anos anteriores.

Todos estes “crescimentos” provocam, naturalmente, dor. A invasão de turistas é notória em Lisboa, com muitos residentes a queixarem-se de barulho, falta de higiene, insegurança, sobretudo em bairros históricos onde proliferam os estabelecimentos de alojamento local. A venda de casas a estrangeiros à procura de visto também potencia todo este cenário já que esses compradores não necessitam de habitar as casas que compram. Ou ficam devolutas ou são rentabilizadas, muitas vezes para arrendamentos de curta duração.

Pessoalmente, compreendo todas estas preocupações. Vejo a situação de Lisboa com alguma apreensão e receio de desertificação dos centros históricos por total incompatibilização com uma actividade fundamental para a nossa Economia, o Turismo. Mas quero acreditar que não passará de uma dor de crescimento, que tal como vem, também vai. Só que esta dor não passará por si. Para ela passar, será necessário actuar.
Já há muito tempo que digo que os Golden Visa deveriam ter quotas. Considero a medida fantástica, óptima para o mercado imobiliário e para a Economia Portuguesa, mas como em tudo, deve haver limites e nós devíamos estabelecer limites ao número de vistos emitidos em cada ano e às nacionalidades a quem os entregamos. Não devemos pretender, com esta medida, vender as nossas cidades a quem não as habita, nem sequer ter uma invasão de cidadãos de um só País.
Além disso, considero que deve haver mais e melhor regulamentação relativamente ao Alojamento Local, exactamente com a mesma perspectiva que coloco relativamente aos Golden Visa. Considero o aumento da oferta hoteleira salutar, tal como a sua diversidade. Não colho as críticas dos hoteleiros “tradicionais” que deverão responder de forma adequada ao mercado e não pedir ao Governo que coloque um travão num produto concorrente. No entanto, devemos também neste caso regular a oferta em cada zona da cidade para que se consiga conjugar o alojamento turístico com o residente lisboeta. Deve-se tentar promover a disseminação em termos de localizações, ao mesmo tempo que se deverá pensar numa concentração em termos de imóveis. Ter AL’s espalhados por vários prédios, numa zona, fracção a fracção, julgo só prejudicar o residente. Deveria haver prédios para residentes e outros para turistas.
Palavras sábias de um amigo e colega, profundo conhecedor do Turismo em Portugal, a definição de “Turismo” não é mais do que “a visita de uma pessoa a outra pessoa”. Sem pessoas em Lisboa, sem lisboetas, sem alfacinhas, que turismo virão cá fazer os turistas? Obrigado pelo constante ensinamento Rui Soares Franco.
Bons negócios (imobiliários)!
Por Gonçalo Nascimento Rodrigues
Main Thinker
Managing Director

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