Gaff é calão inglês para casa. Literalmente, parece gafe em português. Habitação (Gaffs) para todos ou apenas um conjunto de gafes?
Recentemente li um livro intitulado “Gaffs”, de Rory Hearne. O termo “Gaffs” é calão inglês que significa casa. Mas ao ler o livro, fiquei na dúvida se o autor se referia efetivamente a casas e ao direito de cada um ter uma, ou se algumas das propostas por si preconizadas não seriam apenas um conjunto de gafes.
Sobre o autor
Rory Hearne é Professor de Políticas Sociais na Universidade de Maynooth, na Irlanda. É um investigador e especialista em políticas de habitação. Tem já alguns livros e artigos escritos sobre o tema, sendo que “Gaffs” chamou-me a atenção.
Antes de decidir comprar o livro, fiz uma breve pesquisa sobre o mesmo e o seu autor. Acérrimo defensor do direito universal de habitação, tem sido um forte crítico das políticas desenvolvidas na Irlanda.
O mercado imobiliário irlandês, em especial o residencial, tem vivido também um ciclo de forte valorização, depois de uma queda acentuada após a crise do subprime.
Gráfico: Índice de Preços Residenciais na Irlanda

Quem seguiu o tema da crise financeira pós-subprime, lembrar-se-à com certeza do NAMA – National Asset Management Association – criado para gerir os activos imobiliários mal-parados da banca irlandesa. A criação de um veículo externo à banca, a possibilidade de “limpeza” dos balanços dos bancos dos chamados “activos tóxicos” e uma gestão independente marcou, de certa forma, o início da recuperação no mercado imobiliário.
Hearne, entre outras coisas, é um forte crítico desta (e outras) medidas, referindo frontalmente ter sido o despoletar da crise que atualmente se vive na habitação no seu País.
Que propostas preconiza?
Gaffs to all! Assim inicia o conjunto das suas propostas, com vista a alterações significativas no mercado irlandês, que permitam uma franca melhoria na acessibilidade na habitação. Vou procurar enumerá-las de forma sucinta:
- Habitação tornar-se um direito humano, colocado na Constituição;
- Garantia do Estado de entregar 400.000 casas, a preços acessíveis, ambientalmente sustentáveis, fazendo uso de património imobiliário público;
- Constituição de uma empresa de construção de capitais públicos;
- Financiamento público à construção;
- Constituição de um fundo de 5 mil milhões de euros com vista ao financiamento de construção de habitação acessível a entidades não-lucrativas, cooperativas e afins;
- Congelamento das rendas por um período de 3 anos;
- Implementação de mecanismos de controlo de rendas para casas novas;
- Proibição dos despejos de inquilinos;
- Proibição de airbnb’s e short-term rentals em habitações secundárias e limitação dos mesmos em 1ª habitação por um período de 30 dias por ano;
- Terminar com os sem-abrigo;
- Desenvolvimento de políticas que impeçam os veículos de investimento (REIT’s) de adquirirem imóveis residenciais para investimento;
- Eliminar imóveis devolutos, com implementação de novas taxas sobre os mesmos, obrigado à sua colocação no mercado;
- Desenvolvimento de medidas com o objetivo de atingir neutralidade carbónica na habitação. Financiamento de obras de remodelação para os segmentos baixo e médio.
Em suma, é isto. Comentários?
Bons negócios (imobiliários)!






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