Quem é mais rico, afinal?

Por Ricardo Pereira
inPROP Capital Fund
 




 
 
Uma notícia interessante foi publicada em Abril no “The Telegraph”. Nela é referido que o conselho de consultores económicos de Angela Merkel (os denominados “Cinco Sábios”) reprovam a decisão imposta pela Troika aos depositantes dos dois bancos Cipriotas que faliram, pois os capitais dos mais ricos e espertos irão fugir do país (para os países do Norte) assim que puderem (como pequena nota de curiosidade, durante as semanas em que os bancos estiveram fechados em Chipre, as sucursais em Londres permaneceram abertas e a aceitar levantamentos), deixando para os mais pobres uma factura ainda maior.

Em alternativa, os sábios propõem, que da próxima vez que seja necessário resgatar um país, que se tribute a riqueza (em particular o imobiliário pois este é imóvel) pois existe em quantidade suficiente para suprir as necessidades financeiras dos países. Ou seja, começa-se a discutir a possibilidade de aplicar uma taxa sobre a riqueza e valor dos imóveis como forma de equilibrar a dívida pública do Estado.

 
Em simultâneo (ou não), o BCE publicou o estudo que refere que a mediana da riqueza por agregado doméstico em Chipre é de €267.000 enquanto que na Alemanha é de apenas de €51.000 … terrível injustiça serem estes a pagar pelos erros dos outros. O quadro 1 apresenta estes valores.
 
Quadro 1: Mediana da riqueza por agregado doméstico (valores em milhares de Euro)
 
                                                   Fonte: Banco Central Europeu
 
O problema apontado a esta análise é que a mediana é uma medida que é menos sensível a valores extremos e como tal, se a desigualdade no país for elevada e se uma pequena franja da população for super-rica, a riqueza por agregado doméstico será mal representada (o relatório da Knight Frank referido pelo Gonçalo num post anterior, expressa bem esta realidade) .
 
Diversas críticas têm sido apontadas à utilização política destes números (por exemplo ver o blog vox), pois:
 
1 – o mesmo estudo apresenta a média da riqueza por agregado doméstico (Quadro 2) e neste contexto a Alemanha já não aparece tão mal posicionada.
 
Quadro 2: Média da riqueza por agregado doméstico (valores em milhares de Euro)
 
                                                      Fonte: Banco Central Europeu
 
2 – a medida realmente relevante é a riqueza do país e não dos agregados domésticos, pois não inclui a riqueza do sector público e do sector empresarial. Os autores do blog acima referido fazem esta análise e concluem que, afinal, a Alemanha e os países do Norte, são os mais ricos da zona Euro. Como tal, o aproveitamento político dos números apresentados no Quadro 1 parece inapropriado.
 
Quadro 3: Riqueza das Nações per capita
 
 
Na Alemanha, a razão da disparidade entre a riqueza dos agregados familiares e da nação é a acumulação de riqueza no sector empresarial que tem beneficiado do mercado interno Europeu para o escoamento da sua produção.
 
Infelizmente para nós, Portugal aparece em último!! A riqueza dos países do Norte é x3 a de Portugal… não quer isto dizer que eles devem pagar pelos erros dos outros.
 
Mas regressando aos valores apresentados no Quadro 3 e trabalhando no campo das hipóteses, qual teria de ser a taxa de tributação sobre a riqueza para regressarmos a uma dívida de 100% do PIB? Ora €40.000 x 10.500.000 de Portugueses, significa que o valor da riqueza de Portugal é de €420 biliões.
 
Visto que o PIB é €165 biliões, o valor da dívida = €200 biliões (120% do PIB), um corte de €35 biliões na dívida (para 100% do PIB) implicaria uma taxa de 8% sobre a riqueza. (para termos uma referência,o governo não sabe como cortar os €4Bl pedidos pela troika).
 
Por outro lado, se a solução escolhida for uma taxa sobre o imobiliário, assumindo que o valor do mercado imobiliário é €255 biliões (PORDATA: €73.379 (valor médio dos prédios) x 3.479.014 (número de prédios) = €255 biliões) uma colecta de €35 biliões implicaria uma taxa de 14%!!! e continuaríamos com uma dívida de 100% do PIB!!! Tudo parece excessivo e difícil de aceitar.
 
Enfim, espero que não regressemos ao tempo dos “pobrezinhos mas honrados”, para bem das gerações futuras!!

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