Vem a Ventura a quem Procura


Deixo-vos hoje o mais recente artigo que escrevi para o Jornal Oje, sobre a temática dos Procurements Imobiliários.


«No mercado imobiliário, não existe ninguém que proteja e salvaguarde os interesses de quem quer comprar, investir ou arrendar.»

A maior parte de nós já passou pelo fastidioso processo de procurar casa. As longas e intermináveis visitas, muitas delas a imóveis que sabemos que não gostamos e não queremos ver, o processo de pedido de financiamento ao banco, a componente burocrática dos documentos que são necessários para a escritura… enfim, procurar e comprar casa leva tempo, não é fácil e muitas vezes é desesperante.

Diz um provérbio português que “Vem a ventura a quem procura”. Confesso, não podia ser mais adequado ao tema em questão: Procurements Imobiliários. Resta saber como procurar.

Quando qualquer um de nós pretende comprar casa, normalmente inicia a sua pesquisa por motores de busca na internet e recorre a mediadores imobiliários, ou seja, recorre a quem promove a oferta de casas.

Pessoalmente, sou algo crítico relativamente à forma como o mercado de mediação imobiliária em Portugal está organizado. O Decreto-Lei nº 211/2004, que rege a actividade de mediação e angariação imobiliária, refere logo no seu Art. 2º que a actividade de mediação imobiliária se consubstancia em «Acções de prospecção e recolha de informações que visem encontrar o bem imóvel pretendido pelo cliente» e «Acções de promoção dos bens imóveis sobre os quais o cliente pretenda realizar negócio jurídico, designadamente através da sua divulgação, publicitação ou da realização de leilões».

Significa isto que entende-se por mediação imobiliária a actividade que visa encontrar um bem imóvel mas também aquela que visa promover a sua venda. Para mim isto demonstra um claro conflito de interesses da parte do mediador. Se não, vejamos porquê.

Quando recorremos a um mediador imobiliário, este, antes de tudo, apresenta-nos os imóveis que tem em carteira, procurando vendê-los. O seu principal objectivo é vender os imóveis que promove para poder, o mais rapidamente possível, facturar comissões. Mesmo que ele angarie um cliente que procura casa, antes de procurar seja o que for vai tentar vender o que tem em carteira, mesmo que não seja adequado ao produto pretendido pelo seu cliente.

Nestes casos, o mediador está sempre a defender os interesses do proprietário do imóvel. É com ele que tem um contrato de mediação e é a ele quem presta um serviço. Logo, quando nós, que procuramos uma casa, recorremos a um mediador, devemos ter consciência disso para salvaguardar a nossa posição. No mercado imobiliário, não existe ninguém que proteja e salvaguarde os interesses de quem quer comprar, quem quer investir ou quem quer arrendar. O mediador faz-se sempre pagar pelo vendedor, logo são os interesses deste que ele terá de defender.

Quantos de nós já fomos levados a ver casas que não gostamos por pura insistência de um mediador? Quantos de nós não nos sentimos já enganados por informações erróneas fornecidas pelo mediador, apenas para nos levar a ver uma casa?

Repito: isto acontece porque o mediador tem um conflito de interesses e factura apenas se vender. Mais ainda, a sua comissão é calculada sobre o preço de venda, logo quanto maior for o preço, maior é a sua comissão e isso apenas beneficia quem vende, não quem compra.

Urge ter no mercado um serviço de apoio à procura. Vivemos tempos que a isso obriga: a oferta é bastante superior à procura (os tempos em que as casas se vendiam num instante e quem queria comprar era “empurrado” a fazer uma proposta, terminaram), o financiamento é escasso e caro, a venda de imóveis é mais morosa e os preços médios tendem a baixar.

Por tudo isto, o processo de escolha de uma casa deve ser criterioso, pormenorizado, tal como qualquer outra decisão de investimento imobiliário. Para tal, é conveniente recorrer a um apoio especializado, de alguém que não tenha conflitos de interesse no mercado, ou seja, uma entidade que não venda imóveis mas se limite a defender os interesses de quem quer investir, comprar ou arrendar. O mercado só terá a ganhar, mesmo o sector da mediação imobiliária. É que no final do dia, sem um comprador satisfeito e devidamente informado, com certeza não existirá nenhuma venda.

Bons negócios (imobiliários)!

9 comentários

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9 Comentários

  • Isabel Abreu - Remax Miraflores
    12 de Março, 2010, 10:12

    Na Remax eu acho que os interesses do Cliente Comprador também são importantes, até porque, com o esquema de partilha que existe, temos tanto interesse em vender o "nosso" imóvel, como em vender os imóveis dos nossos colegas e fomentamos também a partilha no sentido nos nossos colegas venderem os "nossos" imóveis, sendo o lema de "todos ganham"! Também gostamos de angariar o imóvel a preço de mercado, nunca acima desse valor, pois todos perderiam tempo e dinheiro

    REPLY
  • vera Spiegel
    12 de Março, 2010, 10:34

    Amigos , para evitar este tipo de situaçoes , quem procura casa deve
    contratar um consultor imobiliario e pagar um fee de sucesso . este fara a procura de casa que o cliente deseja , e ainda negociara o preço o mais baixo possivel . a nossa empresa opera muito desta forma ,a semana passada fechamos um venda que ja a dois meses estava nos 385.000€ e uns dias antes da escritura fechamos por 330.000€ . este cliente ficou contentissimo e ainda nos pagou mais um bonus. devo dizer que a imobiliaria que repesentava o proprietario pedia , 470.000€ .
    quanto é que este cliente ganhou neste negocio imobiliario .

    bons negocios ,
    v.rita@yoolocation.com

    REPLY
  • Gonçalo Nascimento Rodrigues
    12 de Março, 2010, 10:59

    Isabel,

    Que a Remax tem todo o interesse em vender os seus e os imóveis dos outros… acho que isso não é novidade para ninguém! É esse o seu negócio, vender! A diferença é que eu não falo em vender, falo em comprar, em investir!

    Ana,

    O início do seu comentário diz tudo: quem quer comprar, deve contratar um consultor que NÃO VENDA e pagar pelo serviço.

    A yoolocation é uma mediadora. Ponto. Já falei várias vezes com o Vitor e aliás consta deste blogue uma entrevista com ele. Tem, claramente, elementos que a diferenciam de outras mediadoras mas tem imóveis para vender. Ou não tem?

    Não ponho em causa a qualidade do serviço mas inevitavelmente, existe um conflito de interesses quando alguém, ao mesmo tempo, quer aconselhar vendedor e comprador.

    É minha convicção que quem queira aconselhar comprador ou investidor deve ter como "pedra de toque" não vender. A diferenciação não se faz apenas pela qualidade e tipo de serviço. Neste mercado, duro e por vezes injusto, eu acho que a diferenciação também se faz pela clareza nos actos e nas ideias, honestidade e frontalidade.

    REPLY
  • Anónimo
    12 de Março, 2010, 10:59

    Concordo plenamente com o seu ponto de vista. Urge, num mercado onde a oferta ultrapassa largamente a procura, a necessidade de mediadores sem imóveis em carteira e que procurem a melhor opção existente no mercado para satisfazer o seu cliente! Nós trabalhamos nesse sentido mas como consultores e não como mediadores, sem fees indexados ao valor do imóvel o que, na nossa opinião, evita conflitos de interesses, contrariamente ao que acontece quando as comissões pela mediação são indexadas aos valores das transacções.

    Cumprimentos e continue a escrever bons artigos que nós prometemos ler e dar o nosso feedback à boa maneira da web2.0…

    REPLY
  • Gonçalo Nascimento Rodrigues
    12 de Março, 2010, 11:07

    Essa questão das comissões também já a abordei em outras ocasiões e é, para mim, uma das razões que claramente desvirtua o mercado.

    Quem se faz pagar pelo preço de venda é natural que queira um preço elevado! Quem quer comprar, para além de muitas outras coisas, quer um preço competitivo e que lhe permita ter rentabilidade.

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